Na sala de espera do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) do Programa de DST/AIDS da secretaria municipal de Saúde de Londrina, os olhares não escondem a apreensão pela espera do resultado do teste rápido que detecta a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis e HIV, o vírus que causa a aids. Homens e mulheres de idades variadas encontram-se no primeiro andar do antigo prédio do Centro de Londrina, todos os dias, para fazer pela primeira vez o exame. Alguns deles, infelizmente, vão receber o resultado positivo, deixando de fazer parte de uma estimativa do Ministério da Saúde (MS) que aponta haver uma média de 135 mil pessoas vivendo com HIV/aids no Brasil sem saber que estão contaminados pelo vírus.
Atualmente, o MS estima que 530 mil pessoas vivam com a doença no País, parte delas sem saber. No Paraná, desde quando foi diagnosticado o primeiro caso há 30 anos, a secretaria estadual de Saúde (Sesa) contabilizou, até 2013, 37.386 diagnósticos positivos. Apenas em 2014, dados preliminares apontam 1.699 novos casos no Estado. De 2000 a 2013, 7.616 pessoas morreram com aids no Paraná, o que indica uma média de 564 mortes por ano. Apesar do avanço da epidemia, muita gente continua agindo como se não houvesse risco de se contaminar em relações sexuais.
É o que aponta uma pesquisa realizada pelo projeto Atitude Abril, divulgado no mês passado após ouvir 15.002 entrevistados sobre o assunto. O levantamento detectou que 11% dos pesquisados com vida sexual ativa declararam não usar camisinha, sendo a maioria mulheres (61%), casados (68%) e com idade média de 39 anos. Ainda entre esta parcela, 2% declararam ser portadores de HIV.
A confiança no parceiro é apontada como a principal justificativa para abrir mão do preservativo: 78% alegaram este critério, sendo 63% mulheres. Entre todos os entrevistados, chama atenção a parcela de 20% que teve parceiro que se recusou a usar o preservativo e mesmo assim a relação se consumou.
Elisete Ribeiro, coordenadora do Programa Estadual de Controle de DST/aids no Paraná, explica que existem duas preocupações com relação à epidemia do HIV no Estado. Uma delas é a falta de adesão ao tratamento, que pode levar à morte. A outra é o diagnóstico tardio do vírus, que além de impedir o início da administração dos remédios a tempo de evitar doenças oportunistas, ainda aumenta a possibilidade da pessoa, por desconhecimento do próprio estado de saúde, contaminar outros parceiros sexuais simplesmente por não usarem o preservativo.
A categoria mais vulnerável à contaminação, atualmente, é formada por jovens homens que fazem sexo com outros homens, de 15 a 29 anos. Entre os mais velhos, com mais de 39 anos, a vulnerabilidade recai entre heterossexuais de ambos os sexos. "Apesar das estatísticas indicarem a vulnerabilidade de rapazes homossexuais ou bissexuais, ainda existe a feminização da doença. Atualmente, no Paraná, 40% das pessoas vivendo com aids são mulheres", diz.
Saber a própria sorologia e a do companheiro ou companheira - o que é possível fazer através dos testes rápidos - é questão de autocuidado, assim como o uso de preservativo nas relações sexuais. Mas a total confiança nos parceiros e o tabu em torno da doença ainda impedem conversas sinceras sobre o assunto. "O problema é que as pessoas confiam no que não conhecem", critica.
Elisete acredita que a falta de campanhas que alertem sobre os riscos da aids e a realidade atual de pessoas convivendo bem com a doença provocaram um certo "relaxamento" com relação à prevenção. "Quem tem mais de 40 anos viu muitos ídolos morrendo jovens em decorrência da aids", diz, referindo-se a nomes como os músicos Cazuza e Renato Russo ou atores como Lauro Corona, Sandra Bréa e outros. Os jovens atuais, ao contrário, parecem não entender as consequências da doença.
Para ela, é preciso melhorar a comunicação com os jovens e facilitar o acesso aos preservativos, o que implica em vencer o preconceito entre quem ainda acredita que oferecer proteção é a mesma coisa que incentivar a prática de sexo. "Para 2015, o Estado tem um projeto de disponibilizar preservativos nas universidades, mas a ideia é oferecer também nas escolas estaduais", antecipa.

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