EPIDEMIA - "Faltava informação e sobrava preconceito"
Para quem viveu a adolescência e a juventude nas duas últimas décadas do século passado, falar de aids implica lembrar a morte de muita gente jovem e talentosa que perdeu a vida não só para uma enfermidade até então desconhecida, mas também para a solidão e o preconceito.
Em Londrina, a então estudante universitária Renata (nome fictício) assistiu abismada a família abandonar um primo de 20 anos ao estigma de ser portador da doença. "Eu já estava na faculdade e conversava sobre aids com os colegas, por isso conhecia os sintomas e desconfiei que se tratava da doença do meu primo. Tentei conversar com minha família sobre o assunto, mas eles não aceitavam o diagnóstico", lamenta.
O rapaz faleceu três meses após descobrir que tinha aids, segundo ela "por depressão e tristeza". "Faltava informação e sobrava preconceito. Sumiram com todos os colchões e objetos pessoais porque achavam que iam pegar aids apenas pelo contato com as coisas dele. Até hoje não se fala no assunto. O mais triste é que sequer puseram uma lápide com o nome no túmulo dele", diz.
Renata visitou e cuidou do primo, mas não sentiu a mesma solidariedade por parte dos amigos, que simplesmente ignoraram o rapaz. "Quase ninguém foi ao velório. Meu primo não teve nem direito à memória", disse.
A experiência de conviver com a aids ainda jovem tornou Renata bastante cuidadosa com relação ao tema. Mãe de duas adolescentes, ela conversa abertamente sobre sexualidade com as filhas desde quando eram crianças, justamente para conscientizá-las sobre a importância de agir com responsabilidade em se tratando de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis.
A solidão também marcou muitos momentos de um portador de HIV de 62 anos que se descobriu soropositivo em 1989. "Um grupo de vinte amigos propôs fazermos o teste juntos. Eu topei, mas jamais imaginei que poderia ter o vírus. Fui o único cujo resultado foi positivo", recorda.
Na época, ainda não havia os antirretrovirais que mudaram totalmente as chances de sobrevivência dos pacientes. "Via muita gente jovem morrendo e pensava que eu seria o próximo", diz ele, que se manteve sem sintomas por seis anos.
Sobrevivente de uma época em que a aids causou a morte de muita gente no auge da juventude, ele defende a retomada de campanhas e ações agressivas para disseminar informações sobre os riscos e a prevenção da doença entre os mais jovens. (C.A.)





