'Entendi que sou doente'
Aos 40 anos, o pedreiro Sandro Alexandro da Silva lamenta os mais de 20 anos vividos em função do alcoolismo e do uso abusivo de drogas. A bebida entrou na vida dele aos 16, quando adquiriu o hábito de consumir cerveja com colegas de trabalho. "Me tornei dependente muito rápido. Aos 17 anos trabalhava para o dono de um bar e gastava lá mesmo tudo o que ganhava", lamenta.
O caminho para o consumo de bebidas destiladas e o crack foi curto. "A gente logo encontra outras pessoas que usam. Meu objetivo era ficar chapado", relata ele, que sente muito pela tristeza causada a familiares nos anos de vício. "Eu ficava violento, não era fácil para a minha família. Acabei expulso de casa", relata.
O primeiro internamento para superar o alcoolismo foi aos 20 anos. "Eu pensava em parar de beber por causa da minha mãe, não era uma vontade minha. Fiquei dois meses abstêmio, mas, diante do primeiro problema, voltei a consumir álcool." A procura de instituições tornou-se uma rotina. "Eu ficava um tempo, melhorava e voltava para o vício. Hoje vejo que não fazia por mim, era pelos outros. Por isso não funcionou", acredita.
Os tipos de tratamento a que foi submetido também não ajudaram. "Era só tomar remédio e fazer artesanato, eu não tinha interesse em nada daquilo. Apenas agora entendi que tenho uma doença", revelou ele, que está prestes a completar os nove meses de abstinência na comunidade terapêutica Credéquia, onde finalmente está convencido de que conseguirá se recuperar. "Aqui na comunidade eu tive informação sobre minha doença, sobre as dificuldades que vou enfrentar lá fora e como devo agir para não ter recaídas. Meu objetivo maior é me manter sóbrio", disse.
Os prejuízos causados por mais de duas décadas de vício não são fáceis de ser recuperados. "Fui casado por 14 anos. Minha esposa foi uma guerreira, aguentou muita coisa até chegar ao limite, tenho muito respeito por ela", elogia ele, que teve um filho (que nunca chegou a conhecer) com outra mulher. "Ela foi embora grávida por causa do meu vício", entristece-se.
A escolha de buscar o acolhimento no Credéquia veio depois de dois meses morando na rua. "Ficava triste pensando em tudo que fiz de errado. Pedi ao meu pai para conseguir a vaga", contou ele, que pretendia ficar apenas uma semana "para melhorar". "Percebi que a comunidade era diferente, pois aqui me trataram como alguém doente que pode melhorar. Admiti meu problema e me inspirei na história de outras pessoas que superaram a dependência. Pela primeira vez estou conseguindo terminar alguma coisa na minha vida."
A maior vitória, até agora, foi começar a reconquistar a confiança da família. "Mudei meu jeito de lidar com as pessoas. Agora me sinto preparado para enfrentar situações com as quais não sabia conviver." (C.A.)





