No ano passado, aos 8 anos, a pequena Sara Emanuele Casarin sonhava com o dia em que receberia um livro de leitura da professora para se distrair ao final das atividades diárias e conseguiria entender a história. Apesar da idade e a série escolar darem plenas condições para estar alfabetizada, ela ainda não conseguia ''juntar as letras e formar palavras'', como era ensinada. ''Eu não entendia o que a professora dizia'', recorda.
Foi só com o apoio da educadora, a ajuda de uma amiga da mesma idade e o envolvimento da mãe que Sara finalmente ''deslanchou''. A experiência da garota demonstra que o incentivo à leitura e a oferta de um ''ambiente alfabetizador'' às crianças, muitas vezes, independe das condições econômicas e da classe social da família.
''No início, levava os gibis para casa e minha mãe me ajudava. Na escola, minha amiga Carol lia comigo'', conta ela, que depois de muito esforço finalmente se alfabetizou. A mãe da estudante é a diarista Maria Guida Silva, 41, que apesar de ter abandonado os estudos na sexta série para trabalhar, incentiva as filhas a seguirem por um caminho diferente.
''O estudo faz muita falta'', sentencia ela, que se preocupa com a qualidade da educação que Sara recebe. ''Quando vi que ela não aprendia a ler, fiquei pensando que o ensino está defasado em algumas escolas. Vejo, na casa das patroas, crianças da idade de Sara que também estudam em escolas públicas e já leem e escrevem muito bem. Me preocupo que ela chegue ao sexto ano sem saber o básico'', avalia.
O primeiro livro que Sara conseguiu ler sozinha foi uma historinha religiosa que a mãe trouxe emprestado de uma das casas onde trabalha. Ciente de que a responsabilidade de ensinar deve ser dividida com a família, Maria Guida passou a comprar livros em sebos para incentivar novas vitórias da pequena leitora.
''Consigo encontrar livros bem baratos'', conta ela, satisfeita com os progressos da menina. ''Ela melhorou muito. Sei que meu incentivo faz bastante diferença'', acredita. O clássico ''Peter Pan'' é a história preferida da estudante. ''Mas também gosto dos gibis da Turma da Mônica'', lembra a garota, que recebe ainda o apoio do pai, que trabalha como porteiro, para se dedicar aos estudos.
Maria Guida tem muito apreço pelos livros. ''Sempre fui 'rata de biblioteca'. Adoro ler e quero que minhas filhas também gostem'', diz ela, acrescentando que a leitura permite viver novas experiências. ''Através dos livros, a gente acaba vivenciando situações que não vivemos de verdade. Ler é saber'', ensina.
Mãe de dois rapazes de 22 e 18 anos e também de Talita, 13, ela ainda não viu os filhos mais velhos chegarem à universidade, mas sonha com a formatura das meninas. ''A Talita diz que quer começar a trabalhar aos 16 anos, mas eu não incentivo. Quero que ela consiga passar no vestibular antes. Estamos nos esforçando para que elas tenham condições de fazer isso.''

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