Quando Josiane Priscila Evangelista Ribeiro, 26 anos, começou a cursar Pedagogia, foi orientada por uma professora a procurar ajuda de especialistas para tratar uma possível dislexia. A desconfiança veio do fato de a estudante não conseguir ler e escrever, apesar de ter passado pelo menos onze anos na escola cursando todas as etapas da educação básica.
As profissionais consultadas não confirmaram o diagnóstico. Atentaram, entretanto, que o problema de Josiane era simples e ao mesmo tempo muito complexo: a jovem, que passou por todas as séries dos ensinos fundamental e médio, não foi alfabetizada corretamente. Por isso, não conseguia produzir ou compreender textos escritos.
A história da estudante é surpreendente, mas infelizmente não caracteriza exceção. Pesquisa encomendada pela Câmara dos Deputados em 2008, disponível nos ''Novos caminhos da alfabetização infantil'', organizado por Fernando Capovilla, constatou que 80% dos alunos da oitava série, em escolas públicas, podem ser analfabetos funcionais. As causas do problema, de acordo com especialistas ouvidos pela FOLHA, passam pela utilização de metodologias inadequadas, falta de formação dos professores e condições sociais dos estudantes.
''Até descobrir que não tinha sido alfabetizada, me achava burra, incapaz'', revela Josiane. ''Durante toda a minha vida escolar, ninguém nunca me chamou a atenção'', acrescenta ela, que para sobreviver na escola adotou a agressividade. ''Eu era terrível. A professora me pedia para ler, eu tumultuava e era expulsa da sala. Também me escondia, matava aula...'' Hoje ela reconhece que desafiava os professores e a equipe pedagógica para se auto afirmar. ''Não me interessava pelas aulas porque não entendia.'' Com notas boas nas disciplinas exatas, como matemática, ela ia avançando.
Os pais, humildes e com histórico de pouco acesso à educação, não detectaram as dificuldades da menina. ''Sou a primeira da família a chegar ao ensino superior. Ninguém percebeu que eu não sabia ler'', recorda. Encaminhada para uma clínica de psicopedagogia pela professora da faculdade, ela finalmente conseguiu se alfabetizar.
''Eu não tinha oralidade, não sabia me expressar. Foi na clínica que aprendi a organizar os pensamentos... Lembro de ter ficado indignada quando me deram um exercício de quarto ano para fazer. O pior é que não consegui terminar'', revela. No meio do tratamento com psicopedagoga e fonoaudióloga, Josiane perdeu o emprego e só não abandonou o acompanhamento porque as profissionais ofereceram-lhe o emprego de secretária na clínica.
A jovem conta que aprender a organizar os pensamentos trouxe mudanças que extrapolaram o fato de conseguir entender o que era passado em sala de aula. ''Antes, me vestia com roupas curtas e ia para a balada dançar com as amigas, porque não sabia conversar.'' Hoje, conversar é o programa preferido da moça, que mudou até a forma de se vestir. ''Consigo ver um filme e entender, me interesso por vários assuntos e aprendi a ter postura diante das pessoas'', conta.
Trabalhando em meio período no berçário de uma escola infantil, a estudante universitária, que quer se especializar em psicopedagogia para ajudar pessoas como ela, já realiza com os bebês as técnicas que aprendeu na faculdade e no trabalho com as profissionais da clínica. Com a formatura programada para este ano, ela já escolheu, inclusive, qual será o tema do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). ''Será minha história de vida.''

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