Engenheiro busca validação do diploma
Após se formar em Engenharia Civil na Síria em 2012, um refugiado sírio que atualmente mora no Brasil conseguiu uma oportunidade de trabalho em Dubai, nos Emirados Árabes. Encaminhado na vida profissional, foi obrigado a abrir mão da oportunidade porque o governo sírio recusou-se a renovar o passaporte. "Me solicitaram que eu voltasse à Síria para servir como militar na guerra", relatou.
Decidido a não colocar a vida em risco, visto que a família dele é da cidade de Aleppo e apoia os rebeldes da localidade, ele decidiu se refugiar. "Eu tinha duas opções: atravessar o Mar Mediterrâneo ou viajar ao Brasil, pois tinha contatado a embaixada brasileira em Muscat (capital de Omã), onde me ofereceram um visto humanitário. Pesquisei sobre o país e descobri que era um bom lugar para construir uma nova vida", relata. A família continuou na Síria. "Grande parte deles estão esperando e tentando encontrar razões para não deixar suas casas e memórias", lamenta.
Quando procurou a embaixada, o refugiado foi informado que o Brasil oferecia muitas oportunidades para engenheiros civis. "A burocracia para validar o diploma me chocou demais. As universidades nos pedem documentos impossíveis de obter devido à situação do meu país. Elas tratam pessoas do meu país como estudantes estrangeiros de intercâmbio, nenhuma instituição está realmente considerando nossa realidade como um caso especial. Sem validar o nosso diploma, a única maneira de trabalhar e sobreviver é indo pedir empregos em restaurantes, esquecendo nossa formação e ignorando nossas habilidades profissionais", desabafa ele, que contatou mais de 18 universidades federais, mas não obteve êxito e agora tenta o processo na UFPR.
Para ele, esse tratamento aumenta o temor de que o Brasil nunca irá validar os diplomas e que os refugiados deveriam encontrar uma outra forma de viver. "Até nas comunidades sírias que estão vivendo em São Paulo, vemos brasileiros, filhos de árabes, aconselhando essas pessoas a esquecerem seus diplomas e procurarem trabalhos braçais", relata.
Dez meses depois de procurar emprego incansavelmente, ele está em treinamento em uma empresa da área de Engenharia. "Eles prometeram me contratar como profissional assim que eu resolver meu problema do diploma. Uma das mais chocantes respostas que obtive do professor de uma universidade foi que essas regras e exigências são para proteger o mercado de trabalho no Brasil. O que eles não conseguem entender é que nós somos refugiados e não imigrantes. Nós não temos outra opção", desabafa.
Para o futuro, o rapaz espera completar o mestrado e constituir uma família sem ter medo pela segurança dos entes queridos. "Os brasileiros possuem uma belíssima cultura, com pessoas de diferentes origens. Acredito que este é o lugar certo para construir uma vida", planeja.
Na contramão da rota percorrida pelos refugiados até o Brasil, o empresário Nasser Zebian Nasser, de Londrina, vai constantemente ao Líbano visitar parentes e amigos. Ele estudou um ano no país vizinho à Síria e, durante as viagens, vê de perto a realidade vivida pelos refugiados. "Estive no Líbano em março e mais uma vez presenciei o sofrimento daquelas pessoas", conta.
Os cortiços habitados por várias famílias começam a ser avistados já no aeroporto da capital Beirute. É no interior, porém, que os quilométricos acampamentos compostos por barracos de lona expõem a miséria causada pela guerra. "Eles vivem na pobreza, pedem dinheiro e não têm onde morar", conta. Extorsões e abusos sexuais são outros crimes que vitimam os refugiados, que em alguns locais superam o volume da população local. "Minha cidade tem 400 habitantes libaneses e 1,5 mil refugiados sírios", compara.
Nasser teme pelo futuro do Líbano que, segundo ele, é um país pequeno e não tem estrutura para abrigar tanta gente. "A Síria é muito maior e nem todas as regiões estão em guerra, mas o Estado Islâmico apavora a população com decapitações e cenas de violência. Como viver pensando que a guerra e a destruição podem chegar a qualquer momento? Por isso as pessoas fogem", avalia ele, cuja família faz doações sistemáticas para instituições que atendem refugiados justamente por conhecer a realidade. (Carolina Avansini/Reportagem Local)





