O futuro das empresas depende do bem-estar das comunidades onde estão inseridas. A conclusão, que pode surpreender quem pensa que as companhias são movidas apenas pelo lucro, fez parte da palestra "Como aumentar o valor da sua empresa", que o professor Pedro Lins, da Fundação Dom Cabral (FDC), em Campinas, apresentou na 6ª edição do EncontrosFolha.
Máster em administração pública pela Universidade de Harvard, especialista em administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e com MBA em marketing pela Escola Superior de Propaganda em Marketing (ESPM), Pedro Lins falou para uma plateia formada por empresários, formadores de opinião, representantes do poder público e colaboradores de empresas de Londrina e região.
Na conferência de abertura, ele chamou a atenção da plateia com questionamentos importantes sobre atitudes que visam a sobrevivência dos negócios a longo prazo. "Daqui a 81 anos não estaremos mais aqui, mas nossos negócios estarão", disse ele, que discorreu sobre como a sustentabilidade empresarial pode fazer diferença e agregar vantagens competitivas, garantindo a longevidade das empresas.
A sustentabilidade empresarial, explicou, é baseada em quatro pilares: social, econômico, cultural e ambiental. Se adequar a esses pilares significa gerenciar empresas de modo a melhorar os resultados econômicos, mas também cuidar dos impactos ambientais, das implicações sociais e a salvaguarda cultural das atividades em nível empresarial, local, regional e mundial.
Lins destacou que os empresários devem ter em mente que algumas tendências são inevitáveis no mercado e não podem ser ignoradas por quem quer crescer e se desenvolver. "Queira ou não, elas acontecem", pontua. Uma delas é a pressão social causada por assuntos que incomodam os consumidores, como é o caso de trabalho escravo, trabalho infantil ou até mesmo pedofilia. "Nem sempre temos controle sobre nossa cadeia de produção, não sabemos como agem nossos fornecedores ou clientes", avalia.
Ele cita como exemplo a possibilidade de um prestador de serviço que faz a entrega dos produtos de caminhão se envolver com uma adolescente nas rodovias por onde passa, praticando a chamada exploração sexual de adolescentes, o que é um crime. Caso o assédio seja explorado pela mídia, as chances da marca que está sendo transportada ser envolvida em uma crise é grande. "Há muita preocupação com a ética", destaca, acrescentando que ações de apoio ao desenvolvimento comunitário são bem vistas pelo mercado atual.
Outra tendência inevitável são as pressões ambientais, exemplificadas pelo palestrante com a citação do desastre ambiental ocorrido após o rompimento de uma barragem em Mariana (MG) e que impactou profundamente nos negócios da mineradora Samarco, responsável pelo fato. "A onda azul tomou o lugar da antiga onda verde. Os consumidores já se preocupam com questões como redução no volume de embalagens, menor consumo de água e matéria-prima e modos de produção mais sustentáveis", lista.
Ainda em relação aos consumidores, Lins elencou que os produtos e serviços que tornam a vida simples também integram as tendências inevitáveis. Acesso a bens e serviços a qualquer hora e lugar, marcas fáceis de entender e produtos que tenham uma "filosofia" agregada, como é o caso dos alimentos naturais e orgânicos, são bem vistos pelo mercado. "Além disso, há uma tendência de nostalgia, de retorno ao básico. As pessoas querem comprar marcas nas quais acreditam", destaca ele, que deu o exemplo do "boom" de brigaderias para ilustrar. "Todo mundo gosta de brigadeiro, é um doce que remete à simplicidade e pagamos caro por isso", avalia.
A conectividade deve estar no planejamento das empresas que querem ser sustentáveis. Mídias sociais, páginas para divulgar os próprios produtos e o monitoramento atento das mesmas são atitudes recomendadas, pois as tecnologias atuais permitem que os consumidores tenham acesso às empresas e também a seus concorrentes sem sequer sair de casa. "A conectividade traz o mundo às nossas mãos", disse.
A chamada engenharia de valor é outra tendência da qual as empresas não podem fugir. Termos como custo de operação, esforço de otimização, custo do produto ou serviço e a organização da operação, inclusive penando sobre logística, são ações necessárias, assim como o cuidado com a volatilidade dos preços das matérias-primas, a gestão de análise de riscos e a governança corporativa. O desenvolvimento e amadurecimento crescente de regras e leis indicam também a tendência de politização dos negócios, o que fica explícito na política nacional de resíduos sólidos que impõe à cadeia produtiva a responsabilidade sobre o correto descarte dos resíduos e, em alguns segmentos, sobre o próprio produto quando é inutilizado.
Lins defende que o sistema capitalista pode ser uma força para o bem social, o que fica explicitado no conceito de capitalismo consciente. A empresa consciente, segundo ele, é aquela que busca valores além da geração de lucro, renda e empregos; desenvolve relações e confiança entre os membros da equipe e seus investidores; desperta o que há de melhor nos funcionários, promovendo transformações positivas; e mantém todos os envolvidos no negócio sobre os resultados para que estejam engajados no mesmo objetivo.
Destaca, ainda os quatro "Cs" indispensáveis para que haja competitividade sustentável: convicção, conhecimento, conveniência e constrangimento, este último relacionado à reação do mercado que deixa de consumir determinados tipos de produtos por não serem sustentáveis. "Devemos ser sustentáveis até mesmo para não perder dinheiro", enfatiza, citando pesquisa que comparou por 18 anos empresas similares com alta sustentabilidade e baixa sustentabilidade. "As mais sustentáveis tiveram um retorno de 47% a mais sobre os investimentos. Já as menos sustentáveis registraram retorno de 22%."
Ao final, Lins motivou os presentes ao lembrar que as empresas contemporâneas são dependentes não apenas da licença para operar concedida por órgãos fiscalizadores, mas também da "licença para liderar", que depende das boas práticas e como elas serão interpretadas pelo mercado e pelos consumidores.
"Qual diferença a sua empresa faz? Qual a diferença você faz na sua empresa? Qual a diferença a sua empresa pode fazer, ainda mais? Qual a diferença você pode fazer, ainda mais, na sua empresa?", questionou o especialista, impondo aos presentes uma oportunidade para repensar as práticas empresariais.

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