ENCONTROSFOLHA - Desafio é criar competências coletivas
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de março de 2015
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
No mercado de trabalho atual, as competências individuais não são mais importantes que as competências coletivas, formadas pela união de esforços e potencialidades de várias pessoas. Além disso, a nova configuração das empresas exige que os profissionais sejam empreendedores, criativos e entendam a motivação das tarefas que devem realizar. Mas como promover a qualificação profissional de modo a atender as demandas do século 21?
O psicólogo e professor da área de Organizações e Comportamento Organizacional Sigmar Malvezzi, da Fundação Dom Cabral, se propôs a dar respostas para estas inquietações na palestra de abertura da terceira edição do EncontrosFolha, na última quarta-feira, em Londrina. Em sua conferência, ele destacou que a qualificação da mão de obra é bastante estratégica pelo poder de impactar na sociedade de forma criativa ou destrutiva.
Para o especialista, o desenvolvimento tecnológico e econômico inerente à sociedade atual torna a qualificação um assunto complexo. Isto porque indivíduos isolados não dão mais conta de todas as tarefas, o que impõe aos trabalhadores o grande desafio de criar o que ele chama de competências coletivas. "Quem trabalha sozinho é incompetente para responder às demandas da sociedade", defende.
A qualificação profissional, conforme o palestrante, tem dois problemas evidentes: a baixa empregabilidade dos jovens e o ônus pessoal da gestão das próprias competências. "É difícil encontrar estagiários competentes", exemplifica, acrescentando que pessoas extremamente capazes não estão no mercado porque não fazem a gestão pessoal do próprio desenvolvimento.
O cenário atual tem raízes nas décadas anteriores. Entre os anos 1970 e 1990, a área de gestão de pessoas descobriu o diferencial das competências individuais necessárias para atingir resultados. Em seguida, até 2005, ocorreu uma "guerra por talentos" disponíveis no mercado. Desde então, a percepção de quem trabalha na área é que as competências oscilam e têm prazo de validade. "Nos últimos 50 anos, a gestão de negócios evoluiu do desempenho de tarefas e problemas definidos e facilmente explicáveis para o desempenho de tarefas e problemas de difícil compreensão e frequentemente fragmentados, o que exige um olhar sobre conhecimentos específicos e gerais", explicou.
O psicólogo destaca que o cenário é inerente às condições peculiares em que vivemos no século 21. A primeira condição é a tecnologia digital, que ele chama de "força revolucionária", pela capacidade de colocar os eventos em velocidade acima dos limites humanos, destruindo estruturas, instituições e competências. A segunda condição é a virtualização. As ações são executadas em espaços virtuais invisíveis, acessados apenas por indicadores e narrativas das quais dependemos para entender e criticar o que está sendo realizado. Por fim, ele cita a fragmentação econômica e social inerente ao nosso tempo, que valoriza o poder individual sobre os eventos e a cultura do individualismo.
Neste contexto, a gestão dos negócios acaba sendo uma atividade construída em redes dentro das quais pessoas e eventos se movimentam em alta velocidade. "Nessas condições, planejamento, estruturas e trajetórias são instrumentos necessários, mas insuficientes para a realização de tarefas. A eficácia e a qualidade dos resultados dependem, acima de tudo, de empreendimentos", destaca.
"A empresa não vai dar conta da própria missão se não houver empreendimento", acredita, reforçando que o trabalho demanda desempenhos diversos e sincronia, o que vai produzir as necessárias competências organizacionais mais complexas.
"A criação destas competências é missão dos chefes de equipe em parceria com a área de gestão de pessoas", afirma. Aos chefes, cabe a missão de integrar as ações de diversos protagonistas construindo um "sujeito coletivo". Atingir este objetivo, segundo ele, depende da capacitação individual de cada um e também da liderança. "Isto requer empreendimento dos chefes e da gestão de pessoas", acredita.
O palestrante avaliou que a maioria dos profissionais não está preparado para as tarefas que apresentam incertezas, eventos de alta complexidade e desafios incompreensíveis. A superação deste desafio exige atuação conjunta entre profissional, empresa e sociedade. "À sociedade cabe a educação e a formação. Já a empresa participa pela oferta de oportunidades e investimentos em atualização. Ao profissional cabe a gestão do próprio crescimento", diz. O aprendizado, segundo ele, tem que ter foco na autonomia e na livre imaginação. "Quem ignora a autonomia aprende a produzir respostas, mas não questiona os porquês."


