Transformar o processamento de dados em inovação - para gerar soluções e novos negócios - é o grande desafio da digitalização da indústria e a consequente incorporação da Tecnologia da Informação (TI) nos processos produtivos. Esse foi o mote da palestra do professor Carlos Arruda, doutor em Administração Internacional pela University of Bradford, na Inglaterra, diretor executivo adjunto de parcerias empresariais e gerente do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral. Ele foi o conferencista convidado da quarta edição do EncontrosFolha, que tratou do tema "A indústria da tecnologia de informação e comunicação (TIC) como diferencial competitivo no interior do estado do Paraná".
No evento, Arruda apresentou dados de recente pesquisa realizada pela Siemens – e divulgada pela primeira vez na semana passada - sobre a digitalização e competitividade internacional das empresas brasileiras em relação à inovação. Foram entrevistados 250 CEOs, CIOs, engenheiros e especialistas de pequenas, médias e grandes companhias nacionais. Para 42% deles, o termo digitalização significa a saída do mundo analógico para o digital. "Essa é uma percepção da terceira revolução industrial. A Indústria 4.0 (resultante da quarta revolução industrial imposta pela digitalização) tem que ir além, implementar processos e transformar inovação em novos negócios", diz.
Conectividade, internet das coisas, softwares, aplicativos e aplicações móveis são considerados os mais importantes elementos a serem implementados no ambiente de negócios. Para os profissionais ouvidos pela pesquisa, a digitalização apresenta benefícios muito mais ligados à eficiência no uso de recursos, melhoria do processo decisório e eficiência energética, em detrimento de ser um viabilizador de novos modelos de negócios e dinheiro.
Para o palestrante, o resultado da pesquisa indica que os empresários brasileiros precisam entender que a Tecnologia da Informação não é apenas o suporte para a produção, mas sim o agente de transformação. "O monitoramento dos dados do dia a dia, como trânsito ou o clima, por exemplo, apresenta capacidade de gerar negócios", reforça.
Um dos gargalos para a plenitude da quarta revolução industrial no Brasil é a formação dos profissionais da área, que precisam mudar a cabeça para este novo modelo, que inclui a fusão do mundo virtual com o mundo real, por meio da integração de design de produtos e engenharia de produção baseado em plataformas digitais; o uso de "cyber-phisical systems", ou seja, unidades de produção com representação virtual, permitindo migração para integração de automação; e por fim as cadeias produtivas flexíveis, com informação disponível em tempo real para fornecedores e clientes baseado em sistemas.
"A capacidade humana de gerar inteligência artificial vai superar a capacidade humana de pensar. Os softwares serão cada vez mais capazes de solucionar problemas. É a chamada computação cognitiva", defende, lembrando que um smartphone, hoje, tem mais capacidade de processamento de dados do que os computadores usados para levar o homem à Lua.
Para exemplificar o contexto ele citou o projeto Watson, um computador da IBM que "sabe mais de Medicina que os maiores centros médicos do mundo". Este sistema está em contato com os principais pesquisadores da área, processando dados e disponibilizando informações para os médicos tomarem decisões sobre os pacientes.
Um exemplo mais próximo da união entre tecnologia e seres humanos é o aplicativo Waze, que informa trajetos, localiza endereços e permite escolher rotas com menos trânsito graças à colaboração dos usuários, que alimentam o sistema com dados. "O Waze é tão inteligente porque combina tecnologia com seres humanos", pontua.
Para ele, o desafio dos profissionais de TI – que têm competência para absorver a virtualidade – é transformar esse novo ambiente em soluções estratégicas para gerar valor aos clientes, empresa e sociedade.
"O profissional de TI, anteriormente associado com a manutenção da infraestrutura na empresa, está adquirindo um papel mais ativo por meio do desenvolvimento de projetos e apoio às áreas de produção, processos em alinhamento com a estratégia da empresa como um todo", conclui.
No evento, o palestrante apresentou também um relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial, que posiciona o Brasil no 57º lugar, entre 110 países, com relação à competitividade (veja quadro). "O documento sugere que o Brasil vem reduzindo os investimentos em tecnologia, inovação e sofisticação empresarial em grande escala, em comparação com outros países da pesquisa. Há uma percepção de que o Brasil está em um período de transição e isso poderia ser usado como uma oportunidade para preparar o país para um novo ciclo de desenvolvimento com base na tecnologia", avalia.

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