Encargos reduzem lucro a 25% do valor do frete
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sexta-feira, 25 de maio de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
Os caminhoneiros que aderiram à paralisação nacional têm na ponta da língua e do lápis os motivos que levaram a categoria a bloquear as estradas do País e interromper, desde a última segunda-feira (21), o transporte rodoviário de cargas. "O combustível está muito caro. Entre 47% e 50% do valor bruto do frete fica nos postos", calcula Vanderlei Barcelos Afonso, que saiu de Jaraguá do Sul (SC) no domingo (20) e espera às margens da PR-445, entre Londrina e Cambé, uma decisão favorável do governo.
A redução no preço do óleo diesel é a principal reivindicação, mas os motoristas também defendem a suspensão da cobrança do pedágio para eixos suspensos, a aprovação do projeto de lei que cria a política de fretes mínimos para o frete, a criação de um marco regulatório para a classe, entre outras solicitações.
Na rotina de trabalho de Afonso, estão as viagens entre Jaraguá do Sul e o Norte e Noroeste do Paraná. De Santa Catarina para Londrina ou Maringá, ele costuma transportar bobinas, pedras e farinha. Na volta, leva principalmente carregamentos de soja e açúcar para o porto de São Francisco do Sul (SC) ou Paranaguá. "Faço muitas viagens entre Jaraguá e os portos de São Francisco e Paranaguá, mas não compensam muito. Para ganhar mais, sou obrigado a vir para o Norte do Paraná", conta.
Além do combustível, pesam no bolso dos caminhoneiros os pedágios. Para uma viagem entre Jaraguá do Sul e Londrina ou Maringá, Afonso cobra R$ 3 mil de frete. Desse total, R$ 1,5 mil vão para o óleo diesel, R$ 330 para o pedágio e R$ 100 para alimentação. Outros 12% são reservados à comissão do motorista. "O motorista sou eu mesmo, mas desde que comprei meu próprio caminhão, há três anos, trabalho com essa comissão. É preciso ter essa reserva", explica. "Depois de descontar todos os gastos, sobra para o motorista 25%, isso se ele for 'pé de madame' e não correr muito", calcula Afonso.
Reclamações sobre o valor do pedágio e gastos com diesel são sempre frequentes entre os caminhoneiros, mas eles garantem que nos últimos três anos, as despesas cresceram 40%. Catarinense de Joaçaba, Jocemar Alves Cardoso Leite está na profissão há dez anos. Por quase nove anos, trabalhou por conta própria, mas com o alto preço do combustível, pedágios e peças para manutenção e reparo do veículo, acumulou dívidas, não conseguiu manter o caminhão e a solução foi procurar emprego como motorista. "No Mato Grosso, para onde vou sempre, o litro do óleo diesel está R$ 4,50. Um pneu custa R$ 2 mil. Hoje, para sobreviver como empregado, tem que levar na ponta da caneta. Tem lugar que cobra R$ 10 pelo banho. Café da manhã é R$ 8 e almoço, no mínimo R$ 20. A gente chega a gastar R$ 50 por dia. Em uma viagem de 30 dias, são R$ 1,5 mil que eu tiro da minha comissão, que fica entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil. Quase não dá para viver e sustentar família."
"Não tem compensado a nossa profissão. Trabalho no 15% (de lucro) e às vezes volto para casa devendo para o patrão", comenta Adilson da Silva, que mora em Cambé e regularmente "faz a linha" Curitiba-Londrina, Londrina-São Paulo. "A gente tem que escolher entre almoçar ou jantar. O frete entre Londrina e São Paulo fica todo no pedágio. É de lá para cá que você consegue tirar algum lucro. E, às vezes, chego na porta de casa, dou oi para a família e já tenho que virar para trás e pegar a estrada de novo se não, não pago as contas."
Claudemir Martins trabalha com o próprio caminhão e sofre a cada vez que tem que descer a Serra do Mar para chegar ao Porto de Paranaguá. "Aquele último pedágio custa R$ 120 para a gente. Como pode pagar isso por um único pedágio, só na descida?", questiona. "Daqui até o porto, só na ida, são R$ 280 de pedágio no total e outros R$ 1,5 mil de óleo diesel. Cobro R$ 2,7 mil de frete. Faz as contas. Se descer para Paranaguá e tiver que voltar vazio, sobram só R$ 400."
Para compensar os custos da viagem até o Litoral, Martins costuma voltar com um carregamento de calcário. "Aí sobram uns R$ 1,3 mil, R$ 1,4 mil. Estou há dois anos com esse caminhão (bicaçamba) e cada vez está mais difícil. De uns dois anos para cá, piorou muito."


