Eles também choram e não há nada de mais nisso. Essa é apenas uma das discussões sobre masculinidades mais compatíveis ao modelo social atual. Sofrer calado não cabe mais. Evitar tarefas domésticas e ser violento também não. No conflito entre o que foi ensinado e o que é cobrado, especialistas passam a debater a masculinidade tóxica em busca da identidade do que é ser homem hoje.

Série de ilustrações #SetembroAmarelo da artista Bruna Bandeira alerta para o cuidado com a saúde mental e empatia. É publicada diariamente no perfil @imagineedesenhe no Instagram
Série de ilustrações #SetembroAmarelo da artista Bruna Bandeira alerta para o cuidado com a saúde mental e empatia. É publicada diariamente no perfil @imagineedesenhe no Instagram | Foto: Imagineedesenhe/divulgação

“Não pode chorar, não pode expressar emoções, inseguranças, acho que é a percepção dessa problemática que faz os homens pensarem sobre novas posições”, comenta o professor de Psicologia da Unopar (Universidade Norte do Paraná), Herbert Lopes. Sofrer em silêncio é consequência do que é ensinado aos meninos sobre o que é ser homem. “A criação do homem é limitante, assim como é a da mulher. Essa separação de que uma coisa pode e outra não, a lógica binária, separa uma série de coisas que é da experiência humana e isso é violento”, acrescenta.

Para o professor, o termo ‘masculinidade tóxica’ dialoga com estudos da masculinidade hegemônica. “A nossa posição de homem e de mulher é construída socialmente e tem uma base cultural que legitima o que se considera ser homem dentro de critérios. Quando esses critérios são muito rígidos, próprios para se manter uma ordem social hegemônica, são prejudiciais, que é onde entra a toxicidade”, acrescenta.

O professor de Psicologia da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), Celso Athayde, explica que esses critérios são ensinados de pai para filho. “A ideia de masculinidade é transmitida não geneticamente, mas por intermédio do ensino. A gente ensina como tem que se comportar e eu acredito que a masculinidade tóxica seja uma parte desse padrão comportamental que tem efeito nocivo para todas as pessoas”, comenta.

Ser um potente procriador, oferecer proteção sem falhas e prover a família são obrigações que fazem parte desse estereótipo perpetuado. “Se alguém me ensinou a fazer uma prática masculina e não tenho condições, como prover minha família, por exemplo, eu posso não me enquadrar e vou sofrer. Aí vem outra questão, o homem não pode sofrer, não pode expor sofrimento. São práticas culturais que afetam diretamente o homem”, comenta Athayde. O professor indica que esse comportamento pode desencadear quadros de psicopatologia, desenvolvendo ansiedade, depressão e até suicídio ou ser externalizado de formas prejudiciais, como violência e agressividade.

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Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de homens que se suicidam é quase quatro vezes maior que o de mulheres, e eles também vivem sete anos a menos. De acordo com o Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), do Inpad (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas), 17% dos homens lidam com algum nível de dependência alcoólica e também são maioria em vícios nas demais drogas. Conforme a Associação Quebre o Silêncio, eles levam cerca de 20 anos para contar para alguém que sofreram algum abuso sexual. O Ministério da Saúde aponta que eles são maioria nas mortes por acidente e homicídio (83%). São os que mais morrem e os que mais matam. Temas que entram na discussão para que esse homem desenvolva uma linguagem saudável para expressar suas angústias.

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REDESCOBERTA

“Com a minha esposa e, depois, com a minha filha, eu pude desconstruir essa noção de masculinidade incutida em mim durante a minha infância e adolescência, e reconstruir a visão do papel do homem”, comenta Valter Prado, 39, psicanalista. Ele conta que não teve a presença do pai na sua educação e que buscava referências nos homens do seu entorno. “Eu vivi a minha infância na década de 1980 e, nessa época, a construção do indivíduo macho ainda estava muito latente. Ser homem era não chorar, não demonstrar fraqueza. ‘Levanta, rapaz, você não é homem?’. Esse tipo de frase me fez acreditar que a masculinidade era isso. O masculino nessa época foi muito baseado no inverso do feminino, então, ser homem era o contrário do que as mulheres faziam: era não lavar louça, não brincar com bonecas, bichinhos e coisas desse tipo”, relata.

O psicanalista teve que reaprender a ser homem em seus relacionamentos, um processo que ficou mais latente com a vinda da filha, Malu, 8. “Nós somos educados a ser machos e atualmente essa configuração de homem não serve. Uma nova paternidade requer necessariamente uma nova masculinidade”, afirma. Para ele, lavar, passar, cuidar dos filhos são atribuições sem gênero, mas que são informadas como papel das mulheres. “A nossa lei mesmo diz que o cuidado é coisa da mulher, embora eu não concorde. Por exemplo, a licença-maternidade vai de quatro a seis meses para as mulheres, mas os homens têm de três a 20 dias. Se a lei também diz que os cuidados com a criança são muito mais papel da mulher, os homens acabam se valendo disso para se ausentarem”, aponta.

Escutar esse homem seria uma forma de criar vínculos saudáveis, essenciais para a equidade entre os gêneros e diminuir as relações violentas na sociedade. Athayde afirma que esse é o início de uma reflexão que ainda tem muito a evoluir. “A própria discussão sobre uma nova masculinidade já é um indício de que tem mudado. Obviamente tem muito que mudar ainda. Somos muito machistas, tanto homens quanto mulheres, e uma das grandes coisas que a gente tem que conquistar é ainda o papel da linguagem. Talvez quem colha os frutos dessa discussão sejam nossos filhos”, afirma.

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BUSCA POR INFORMAÇÃO

Construir ambientes de escuta ativa para esses homens que vivem a angústia de novos papéis é uma das ferramentas encontradas por diversos grupos espalhados no País. Aqui em Londrina, o psicanalista Valter Prado, 39, criou o Paideia: Dialogando Paternidades, em que homens se reúnem para discutir uma paternidade ativa, quando, na verdade, foram ensinados a ter foco em prover e proteger a família.

Nesses grupos, Prado nota que a busca por informação para um papel mais saudável na educação acaba tornando-se uma discussão da própria masculinidade. “Percebo muito empenho desses homens em buscar informação, não só pela internet, mas também na clínica e em grupos de homens, mas especialmente no grupo de paternidade. Para ser pai, é importante que saiba cozinhar, entender de saúde de criança, truques da casa, passar roupa, coisas que eram tidas como femininas e que os pais precisam desenvolver para uma paternidade realmente ativa”, defende.

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Outra forma de grupo é o orientado pela Lei Maria da Penha como alternativa penal a autores de violência. O professor de Psicologia da Unopar e PUC-PR, Herbert Lopes, atuou no Projeto Caminhos, em 2014, atendendo a homens que agrediam mulheres verbal ou psicologicamente. “Precisávamos mostrar que o ato praticado não é parte da identidade do homem. Isso foi aprendido, porque eles não entendiam suas atitudes como algo violento. É mais difícil entender agressão psicológica como violência e porque também tem essa questão de culpabilizar a vítima para legitimar o ato, porque essa era uma prática que era aceita, agora não”, afirma o professor.

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Lopes conta que essa conversa e, principalmente, a escuta foi fundamental para que pelo menos haja uma reflexão interna sobre os papéis do homem atual. “A gente via uma coisa muito interessante, eles não tinham espaço para conversar sobre si, para chorar, se reconhecer frágil. Era uma execução de uma pena e eles estavam fragilizados. Eu via resultados muito promissores”, afirma.

MULHERES

O grupo como alternativa para a pena da violência contra as mulheres demonstra a demanda dessas discussões. “Novas posições de mulheres têm exigido novas posições de homens”, defende Lopes. Ele afirma que essa é uma demanda de uma série de transformações sociais, entre elas, o movimento feminista. “Foi demanda dessas mulheres e de outros grupos que eram afetados por essa toxicidade, como grupos LGBTQ, e a própria violência urbana, problemáticas sociais que têm uma questão de gênero e que está evidenciando essa posição de homem que precisa ser repensada”, defende.

Segundo os especialistas, falar sobre o sofrimento dos homens não diminui a causa das mulheres. Pelo contrário, é uma alternativa complementar para que os homens se reconheçam como agentes sociais mais conscientes de que a violência não faz parte da sua identidade. “Não adianta trabalhar só com as mulheres para resolver os conflitos de gênero, eles são parte desse movimento e têm que ser envolvidos”, aponta Gustavo Venturi, professor de Sociologia da USP (Universidade de São Paulo).

Para ele, os homens continuam em relação de privilégio, mas o tema faz avançar a contrapartida, como as cobranças sociais muitas vezes assimiladas na educação e que são prejudiciais também ao homem. “A assimetria de gênero é prejudicial para todos. Se não por outros fatores, o simples fato da desigualdade gera um conjunto de conflitos, como as mulheres têm levantado como principais protagonistas, porque são as mais afetadas por essas assimetrias”, argumenta Venturi.

DOCUMENTÁRIO

Para falar sobre o assunto, o portal Papo de Homem lançou em agosto o documentário “O Silêncio dos Homens”. A produção baseada em uma pesquisa com mais de 47 mil pessoas da internet fala sobre formas mais adequadas de exercer a masculinidade, tendo como ponto fundamental a quebra do silêncio. Ismael dos Anjos, coordenador do projeto, conta que o documentário tenta trazer o assunto mais para perto da comunidade. “Leva a conversa sobre masculinidade de maneira mais acessível para quem nunca ouviu sobre isso, endereçar temas que são urgentes e que precisam ser comentados”, afirma.

Tornar mais acessível é um ponto destacado pelo professor da USP, Gustavo Venturi. “Não é uma discussão que esteja espalhada nas camadas populares, mas em setores informados e de homens de acesso com educação superior”, aponta. “Estamos indo em uma boa direção, mas ainda muito distantes de superar os problemas colocados por essa masculinidade hegemônica”, acrescenta. O professor também assessorou a pesquisa que deu respaldo ao documentário.

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A primeira parte da pesquisa foi divulgada também em agosto. Os resultados demonstram que sete em cada dez homens concordam que foram ensinados, durante a infância e adolescência, a não demonstrarem fragilidades e só dois em cada dez tiveram exemplos de como assumir seus medos e pedir ajuda. “Apenas três em cada dez homens têm o hábito de conversar com amigos, a maioria foi ensinada a guardas as emoções, ter certa restrição, não se abrir. Seis a cada dez homens também responderam ter algum problema de saúde emocional e só um em cada dez frequenta o psicólogo”, aponta Dos Anjos.

Os dados demonstram que os homens sofrem, mas sofrem em silêncio. Mas quem ou o que silencia esses homens? “A noção que a gente tem do que é masculinidade, de ser um cara forte, de aguentar o tranco. Isso adoece as pessoas”, responde o coordenador do projeto. Para ele, não é mais aceitável na nossa sociedade manter certos comportamentos. “Os homens precisam refletir sobre o que estão fazendo e entender novas formas de ser homem”, defende. O documentário está disponível gratuitamente no Youtube.

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