No maior País da América do Sul, o Brasil, 13,3% da população com idade acima de 15 anos ainda é analfabeta. Embora seja um número expressivo, é preciso frisar que esse índice vem se retraindo ao longo dos anos, fruto da expansão dos equipamentos sociais de alfabetização e da necessidade crescente de aprimoramento profissional e intelectual.
A inserção na sociedade, de uma forma plena, passa pela educação e hoje os grupos minoritários têm na escola uma chance de se integrarem ao meio. É através da educação que as diversas minorias conseguem diminuir o preconceito histórico e ser aceitos como cidadãos de fato e não somente de direito.
Até um ano atrás, as nove mulheres que hoje frequentam um dos cursos de alfabetização de adultos oferecido pelo Programa de Educação ao Assalariado Rural Temporário (Peart) em parceria com a Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia), em Londrina, se enquadravam na estatística dos ainda não-alfabetizados.
Atualmente, essas mulheres já fazem parte de outro índice estatístico: o dos adultos que aprenderam a ler e escrever. O fato de a turma ser formada, em sua maioria, por profissionais do sexo, acaba sendo apenas um detalhe. Muitas dessas mulheres iniciaram ‘‘na vida’’ no final da década de 70 e início dos anos 80 na Praça Rocha Pombo (região central de Londrina) e, sem se darem conta, viram e sentiram as transformações sociais que ocorreram no local, na profissão e na sociedade. A faixa etária das alunas varia de 28 a 63 anos.
O preconceito ainda existe, tanto que as mulheres preferem dar nomes fictícios em vez dos verdadeiros. É o caso de Fernanda, uma mulher de apenas 43 anos que é mãe, avó e, hoje, estudante. Ela conta que voltou a estudar porque sentia necessidade de saber ler e escrever.
Emocionada, ela descreve que um dos dias mais felizes da sua vida foi quando conseguiu ler os letreiros de uma loja que fica próxima à sua casa, na periferia de Londrina. ‘‘Num dia de manhã, saí de casa para pegar o ônibus e, como todo dia, passei em frente à loja. Olhei para a parede e consegui ler. Estava escrito bazar.’’
‘‘Com as aulas, eu consigo ver o que eu não via. A pessoa que não sabe ler é como um cego que não pode ver’’, relata. Fernanda diz que chegava até a se sentir constrangida em certas situações por não saber ler. Passadas as dificuldades, agora ela afirma que ‘‘enquanto não conseguir aprender bem’’ não irá mais abandonar as aulas.
A amiga de vida e de classe de Fernanda, Diva, de 43 anos, também não frequentou a escola quando criança e cansou de ser chamada de analfabeta. ‘‘Eu sabia só assinar o nome’’, confessa. ‘‘Agora estou aprendendo e ninguém mais me chama de analfabeta.’’ Ela confessa que perdeu um emprego de garçonete numa pizzaria porque não sabia ler a ficha com os pedidos.
A rotina da praça deu-lhe a segurança necessária para que encare as dificuldades de frente, sem medo desse ou daquele rótulo. A escola auxilia dando a liberdade e independência para que possa enfrentar as adversidades com mais segurança. ‘‘Hoje em dia, nada e nem a vida me põe medo.’’
E para ela, as aulas estão sendo fundamentais. Diva sofria de depressão profunda e tomava, inclusive, medicação diária para tratar da doença. ‘‘Depois que comecei a frequentar o curso parei de tomar os remédios’’, afirma.
A monitora e voluntária da Alia, Adriana Xavier Dorta, não passou pela experiência de ter que se prostituir para sobreviver, mas também não teve oportunidade de estudar. Ela relata que quando as alunas começaram a frequentar as aulas, não sabiam nem pegar no lápis. Hoje elas já fazem conta e juntam as letras formando palavras. ‘‘Se todos derem incentivo à educação, o Brasil poderá caminhar sozinho’’, acredita.
Adriana frisa que o projeto mantém-se com dificuldades, mas mesmo assim ainda oferece vale-transporte para as alunas. As aulas são dadas na sala de entrada da Alia, que cedeu o espaço gratuitamente. ‘‘É um grupo pequeno, mas que quer aprender.’’ E por que não abrir o curso de alfabetização também para homens? ‘‘Eles não têm regularidade e mulher tem muito mais atitude. No início, tinha um travesti, mas desistiu por motivos de saúde’’, esclarece.
A educadora da turma, Maria Abadia Lúcia, comenta que a meta do curso é levar educação não só as profissionais do sexo mas a toda mulher que não teve a oportunidade de ser alfabetizada. Ela explica que quando o projeto nasceu, há pouco mais de dois anos, era dirigido somente as profissionais do sexo, mas o índice de desistência era grande. ‘‘Elas achavam que estavam perdendo dinheiro por causa do tempo que passavam tendo aula.’’
Outro problema que foi verificado no início do projeto, mas que já foi contornado é que as mulheres traziam para a sala de aula a competição que existe entre elas nas ruas. Segundo a educadora, quando o projeto foi definido a intenção era atender 15 alunas regularmente. Hoje atende nove mulheres e o restante é a chamada população flutuante, que costuma frequentar as aulas eventualmente.

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