O tema redação foi o que mais motivou discussões na área de educação nos últimos tempos. Tudo por conta da redação do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicado em novembro.
A prova causou polêmica no dia em que foi realizada, já que o tema proposto, o movimento migratório para o Brasil no século 21, foi criticado por estudantes e profissionais da área de educação. O problema aumentou quando as notas da redação foram divulgadas.
A revolta de estudantes insatisfeitos com as notas que receberam chegou à Justiça, mas o Ministério da Educação (MEC) saiu vitorioso e conseguiu manter o calendário do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), processo que utiliza as notas do Enem 2012 e oferta quase 130 mil vagas em 101 instituições públicas de Ensino Superior.
''O Enem foi um pouco infeliz em colocar um tema que não é muito do cotidiano dos estudantes'', critica o escritor e especialista em redação Rogério Chociay, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). ''Tenho certeza de que foi um lapso, que não será repetido.''
Chociay destaca que a redação do Enem enfrenta o grande desafio de ser uma prova de abrangência nacional, aplicada para estudantes de realidades muito diferentes. ''O Brasil é muito diversificado em todas as regiões e em todas as atividades, e o ensino é uma delas. O que o Enem enfrenta é muito difícil, porque propõe um único tema para regiões muito diferentes entre si. Há regiões em que o ensino é ruim. Em outras, é razoável. No Estado de São Paulo, por exemplo, observo que o ensino de redação tem melhorado bastante'', relata o professor.
''O fato é que a maioria dos estudantes não tem condição de fazer uma redação primorosa. O que se deve esperar é um desempenho razoável, é isso que tem que ser trabalhado. O aluno não vai se tornar um escritor completo e acabado ao final do Ensino Médio'', diz Chociay.
''Nós temos uma série de problemas já conhecidos: precariedade das escolas, falta de equipamentos, professores mal remunerados e com excesso de trabalho. Para melhorar o ensino brasileiro por inteiro, e não só na redação, isso tudo tem que ser corrigido'', afirma o professor. ''A solução não vai ser na redação, na matemática, ela tem que ser global.''
Jovem cidadão
O professor de redação Carlos Fortes considera que o tema da última redação do Enem foi ''válido'', mas que foi equivocada a forma como foi proposto. O professor acredita que em geral as provas de redação, tanto do Enem quanto de vestibulares e outros tipos de concurso, são elaboradas com o ''critério da facilidade de corrigir, a um custo menor'', sem a preocupação de testar a real capacidade de análise do candidato - o que gera reflexos no ensino de redação.
''O Enem perde a chance de avaliar o que o jovem brasileiro pensa. A preocupação de colocar a redação como um instrumento de seleção é que gera tantos problemas e tantos recursos, quando ela poderia ser um instrumento de avaliação das matrizes pedagógicas do Brasil inteiro, para responder à pergunta: 'Será que o jovem brasileiro está sendo treinado para ser cidadão'? Não é isso que tem acontecido'', diz Fortes.
''Na educação básica, não se definem as práticas diárias escolares de produção de textos, não se cria uma tradição, um molde metodológico, um know-how para colocar o estudante para pensar. Os professores não têm instrumentos para desenvolver esse know-how. A escola fica dependente do que os exames exigem, o Enem e os vestibulares, e se orienta por aí'', afirma o professor.
Diferença
A nota máxima da redação do Enem é mil pontos. Na edição 2012, cada prova foi examinada por dois corretores. Se a diferença da nota atribuída por eles excedesse 200 pontos, a redação era enviada a um terceiro corretor. Em casos com diferença maior de 200 pontos entre essas três notas, uma banca examinadora avaliou a redação.
Na edição anterior do Enem, realizada em 2011, das 10.076 escolas que atingiram o número mínimo de participantes no exame e tiveram médias calculadas, 2.192 tiveram nota média na redação inferior a 500, o que representa 21,75% dos estabelecimentos de ensino. Entre as 20 escolas com piores notas, todas eram públicas. Entre as 20 com melhores médias, 19 eram particulares. As médias do Enem 2012 por escola devem ser divulgadas apenas no segundo semestre.
Correção
Os estudantes que fizeram o Enem 2012 já podem ter acesso à correção de suas redações. Para acessá-la, o estudante deverá entrar no site do Enem (http://migre.me/d8BKR), com o CPF ou o número de inscrição e a senha. As correções terão apenas finalidade pedagógica, ou seja, não serão passíveis de recurso. Ao todo, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) foram corrigidas 4.113.558 redações, das quais 1,82% estavam em branco e 1,76% obtiveram nota zero. (Com Agência Estado)

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