EDUCAÇÃO - O desafio da alfabetização plena
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sábado, 05 de outubro de 2013
Lúcio Flávio Moura<BR>Reportagem Local 
Ainda sob o impacto da divulgação dos dados sobre analfabetismo colhidos na última Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD), que apontou crescimento de 297 mil pessoas nesta condição de 2011 para 2012, os educadores têm outra preocupação dentro do mesmo tema: o nível da alfabetização.
De acordo com os últimos dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), elaborado pelo Instituto Paulo Montenegro e divulgados no ano passado, o índice de brasileiros com alfabetização plena é de apenas 26% (veja quadro nesta página). Mais preocupante ainda, segundo os especialistas, é a estagnação do índice, que é o mesmo desde a medição divulgada em 2002. A melhora do nível de leitura esbarra, segundo os educadores, na deficiência do ensino regular nos três primeiros anos de escola e na pouca eficiência dos programas de alfabetização de jovens e adultos.
"Se a criança não aprender corretamente a ler e a escrever nos três primeiros anos da vida escolar, o restante do aprendizado ficará comprometido. É isso que está acontecendo", afirma Edmilson Lenardão, professor do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em gestão e políticas públicas e doutorando em ensino e aprendizagem.
"Não estamos deixando claro para as crianças e adolescentes qual é o real papel da escola, que, sobretudo, é um espaço de aprendizado. Não há uma política pública firme, clara e com perspectiva para os alunos. Estamos entregues a fatores emocionais dentro da escola, como deixar o aluno feliz, preencher o tempo ocioso deles, promover o lazer. E o aprendizado é relegado", critica.
Conforme Lenardão, o resultado do Inaf e de outros testes que medem a eficiência das políticas públicas em educação é coerente com o modelo pedagógico "frouxo". "Se não há compromisso com os resultados, eles não aparecerão. É preciso supervisionar melhor o desempenho dos alunos e dos professores".
Crítico do modelo construtivista (linha hegemônica na educação pública brasileira que parte do princípio que "o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado"), considerado por ele como ineficiente, Lenardão propõe a adoção de um novo modelo pedagógico, mais compatível com as expectativas das avaliações oficiais. "Se continuarmos com essa contradição, os resultados seguirão decepcionantes", afirma.
Letramento
"Estamos vivendo em uma sociedade que exige uma sobrecarga de trabalho, em busca do ter e não do ser. O intelectual é desvalorizado, não se exige dos cidadãos o aprendizado e a leitura acerca do que ocorre no mundo", afirma a professora Sandra Aparecida Pires Franco, integrante do Observatório de Educação, iniciativa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) da UEL. "A alfabetização muitas vezes está sendo substituída pelo letramento, o sistema acaba não ofertando nem a leitura do que está ao seu redor nem a decodificação de palavras".
Maria Aparecida Zanetti, professora da Universidade Federal do Paraná e mestre em educação, acredita que o País investe um volume, embora crescente, ainda insuficiente na formação dos professores. Tanto no ensino básico para crianças quanto na alfabetização de jovens e adultos. Para ela, há deficiência também na oferta de material escrito, além dos livros didáticos obras de literatura, revistas e jornais. O exemplo desta deficiência, destaca, são as condições das bibliotecas escolares.
Para ela, a melhora no quadro medido pelo Inaf é uma busca a médio e longo prazo. "Na década de 1920, tínhamos 85% de analfabetos. Parece muito tempo, mas não se passou sequer um século. Não é possível reverter esta condição tão rapidamente num país das dimensões do Brasil, mas é preciso continuar aumentando o investimento na formação de professores", contextualiza.
Vivência
A professora da Federal detecta um problema no esquema de alfabetização de jovens e adultos adotado pelos governos. Ela diz que o segmento deve passar por um fortalecimento, com uma política oficial permanente. "Ainda tratamos o problema com programas temporários, onde os professores não têm uma formação específica e onde haja uma proposta curricular que acolha o jovem e o adulto a partir de sua própria vivência", afirma.
Maria Aparecida lembra que o número de matrículas neste tipo de programa caiu cerca de 17% entre 2009 a 2012. Ela atribui a queda aos critérios de escolhas para a criação de vagas feitas pelos gestores municipais. "Do ponto de vista financeiro, é mais vantajoso a criação de vagas para crianças. Cada aluno de alfabetização para jovens e adultos recebe 80% do que recebe uma criança", analisa.
Ivo Rodrigues Ayres, professor de história do Centro de Educação Hebert de Souza, em Londrina, que funciona à tarde e à noite como espaço para alfabetizar jovens e adultos, concorda com Maria Aparecida. Para ele, a alfabetização fora da idade correta deve sair do âmbito de programas para ser parte do sistema de ensino de forma permanente, com políticas específicas.
Ele também afirma que o segmento ainda sofre com a falta de escolarização nos cursos, herança do velho conceito dos supletivos. "Neste tipo de curso, o objetivo é o certificado e não o aprendizado. Ainda há um forte resquício desta mentalidade no nosso segmento", afirma.
Esforço pessoal
Na escola, no entanto, é possível encontrar quem venceu todas as deficiências do sistema e fez do seu próprio esforço pessoal um impulso para contrariar as estatísticas, lembra Ivo Ayres. Ele apresentou à reportagem o zelador Adão de Carvalho Borges, de 49 anos, que recomeçou seu processo de alfabetização aos 43 anos. Morador da zona rural na infância, ele desistiu de aprender a ler e escrever aos 12 anos por causa da necessidade de trabalhar. "Mas sempre tive vontade de ler a Bíblia e de fazer coisas no condomínio que eu não conseguia como, por exemplo, redigir pequenos recados aos moradores afixados nos elevadores." Hoje ele se orgulha de ter lido todos os livros da Bíblia e vários livros dos escritores clássicos José de Alencar e Aluísio de Azevedo. "Hoje não posso ver um livro descartado por algum morador que vou lá e apanho. Já tenho uma boa biblioteca", conta.


