Levantamento realizado pelo Movimento Todos pela Educação (TPE), com base em dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2013, aponta que os meninos têm desempenho melhor que as meninas em matemática. A distinção, porém, não tem a ver com biologia ou aptidão para a disciplina. De acordo com a professora de matemática Lindamir Salete Casagrande, pesquisadora na área de Educação e Gênero da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a diferença decorre da falta de oportunidades oferecidas às meninas para que desenvolvam o interesse pelos números.
Conforme o TPE, apenas 7,2% das meninas terminaram o Ensino Médio com desempenho adequado em matemática. Para os meninos, o índice foi de 12,7%. Um levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com base nos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), comprova a hipótese. O estudo – que abarca 34 países – aponta que meninas sentem-se mais inseguras frente a formulações matemáticas e, por isso, são mais suscetíveis a erros. De acordo com o estudo, os meninos brasileiros ficaram 20 pontos à frente de meninas na pontuação total do teste de matemática.
"Não gosto muito dos dados do PISA porque a pesquisa não considera o contexto", critica a professora. Segundo ela, enquanto os meninos são estimulados desde pequenos a interagirem em ambientes criativos e experimentar jogos, as meninas são criadas com circulação mais restrita. Além disso, nas famílias cabe a elas cuidar dos irmãos mais jovens, realizar tarefas domésticas e outras atividades que tiram tempo de estudo. "Não significa que elas não possam se interessar por matemática. Deixem que elas estudem que os resultados aparecem", pede, lembrando que o rendimento escolar da população feminina, considerando todas as disciplinas, é maior que a dos meninos. "Em geral, elas têm tanta capacidade e interesse quanto os colegas do sexo masculino", pontua.
Os professores também falham em relação ao tratamento igualitário entre os dois sexos. "Eles tendem a estimular os meninos a exporem as dúvidas, irem ao quadro resolver exercícios. É uma questão cultural, pois meninos e meninas têm as mesmas condições de aprender."
A parte mais "cruel" do processo, segundo ela, é que este comportamento dos adultos acaba afastando as mulheres de carreiras valorizadas social e financeiramente, como é o caso das engenharias. "As alunas que ingressam em cursos de Exatas acabam sofrendo preconceito dentro das universidades e também no mercado de trabalho", denuncia Lindamir, que inclusive realizou uma pesquisa sobre o tema.
Ela reforça que o ensino de matemática no Brasil tem falhas que independem de questões de gênero, o que fica evidente nas avaliações sobre a disciplina. "Ensinar matemática precisa ser lúdico e estimulante", ensina. "Uma geração que não consegue fazer contas sem calculadora", para a professora, é uma das consequências mais evidentes das falhas no ensino. "A sociedade precisa de seres pensantes e a matemática trabalha o pensamento, o raciocínio lógico necessário para encontrar soluções para os desafios do dia a dia", diz.

DESTAQUE
Com incentivo da família e de uma professora que percebeu cedo o talento da aluna para matemática, a estudante Beatriz Pavão, de 14 anos, sempre se destacou na Olimpíada de Matemática e, no ano passado, foi uma das medalhistas de bronze do concurso. A aptidão para os números também garantiu outra conquista. Este ano, ela iniciou os estudos no Ensino Médio Integrado à Informática no Instituto Federal do Paraná (IFPR).
Reconhecida como uma estudante de altas habilidades, ela começou a frequentar um projeto de aprendizagem de matemática do Colégio Estadual Vicente Rijo quando ainda estava na segunda série dos anos iniciais do Ensino Fundamental. No sexto ano, passou a competir na Olimpíada, sempre com incentivo da professora Maria Aparecida da Silva Carvalho. "Matemática é minha matéria preferida", conta ela, que tem uma rotina de estudos "normal".
Beatriz gosta tanto da disciplina que pretende fazer faculdade de engenharia para se dedicar aos números. Como uma menina que se destacou nos estudos da disciplina, ela garante que não é preciso ter medo de aprender. "Matemática é para todos", garante.

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