No princípio a semente germinava na terra. Por temer que no futuro a germinação não aconteça mais dessa forma, a escritora e ecologista Noêmia Leles de Freitas, de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), recolheu mais de 2 mil espécies de sementes de árvores encontradas no território nacional e guardou em cápsulas de resina. Para que as futuras gerações saibam como é feita a germinação natural, ela também coletou amostras de solos dos 27 Estados brasileiros e está se preparando para montar uma espécie de arca de Noé vegetal. O projeto vai se chamar Museu Terra Pau-Brasil 2000/2001.
Noêmia conta que o projeto nasceu na virada do século 20. ‘‘Pensei em preservar sementes e solos da forma como eram encontrados no final do ano 2000.’’ Ela começou a recolher as amostras nas ruas e chácaras de Rolândia. O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) de Campo Mourão enviou as primeiras sementes e a partir daí as doações não pararam. Noêmia já catalogou mais de 2 mil espécies de árvores e arbustos, ornamentais e frutíferas. As ervas daninhas também não foram preteridas. ‘‘Todas as espécies vegetais têm sua importância dentro do equilíbrio da natureza.’’
Segundo Noêmia, a preservação das sementes passa por vários processos. Elas são lavadas e depois é feita a secagem natural. Na etapa seguinte as sementes são armazenadas e passam por três misturas químicas, para depois serem acondicionadas em cápsulas de resina, que se assemelham a casulos, ou ao órgão reprodutor masculino e feminino. O processo, garante Noêmia, não compromete a germinação das sementes. ‘‘Já quebrei algumas cápsulas e consegui formar mudas’’, assegura a ecologista, que tem dezenas de exemplares de árvores já formadas no quintal da casa. Ela acredita que os recipientes possam preservar as sementes por tempo indeterminado.
Sem se preocupar em ser rotulada de visionária, Noêmia se dedica ao trabalho sozinha e sem nenhum patrocínio. A maior dificuldade, diz, é a comunicação com institutos de pesquisa e pessoas de outras cidades e Estados, para onde ela telefona solicitando amostras de sementes e solo. ‘‘Já tive o telefone cortado mais de uma vez porque não consegui pagar a conta.’’ Para cobrir parte das despesas, Noêmia vende sementes a R$ 0,50 e mudas de árvores a R$ 2,00. Os contratempos, segundo a ecologista, são menores do que a realização pessoal. ‘‘Minha intenção é contribuir para que as pessoas, no futuro, saibam que houve um tempo em que somente a terra fecundava a semente.’’
A maioria das amostras de solo, que variam do marrom até tonalidades que passam do azul ao verde, foi enviada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Somente no Paraná, Noêmia já conseguiu quatro tipos de solo, mas ela espera coletar ainda mais, para montar um mapa do Brasil. A idéia do mapa e da cápsula, relata Noêmia, foi patenteada na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

mockup