'É triste. É chocante'
Karim Hanna contou que antes da guerra a vida na Síria era "normal". Ele trabalhava, saía com os amigos, viajava tranquilamente. "A Síria era o terceiro país mais seguro do mundo. Eu podia andar às 5 da manhã e ninguém mexia comigo. Uma mulher podia caminhar na rua, de madrugada, e ninguém falava com ela. Mas agora, a minha cidade é a primeira cidade mais perigosa do mundo. É uma situação bem triste", resumiu.
A comunicação com os amigos que ficaram na Síria não é fácil. Além da diferença de seis horas, em Aleppo não há eletricidade e internet todos os dias. "Eu consigo me comunicar mais facilmente com quem está vivendo na Europa", relatou. As notícias acabam vindo por meio do Facebook e outras redes sociais. Foi por uma foto na internet que ele reconheceu o corpo de dois amigos de infância mortos em uma explosão. "É triste. É chocante", lamentou.
"Eu não perdi ninguém da minha família. Mas eu tinha amigos, amigos pra caraca", afirmou Karim. "Para nós, amigo é igual irmão porque na Síria nós estamos juntos todos os dias depois do trabalho. No Brasil é no fim de semana. Na Síria, você vê seus amigos todos os dias", recordou.
Milad Hanna sente muito perder o que ele chama de "sua memória": amigos, costumes, cultura, tradição, idioma e a comida. Ele lembrou a censura que cala o seu povo. "Quem está na Síria não consegue levantar a voz para aparecer na TV, na mídia, porque é fechado. Não tem condições para falar."
Karim concordou que a foto do corpo do bebê sírio Aylan, encontrado em uma praia da Turquia, mudou bastante a forma como o Ocidente vê o drama dos refugiados. "Só essa criança impactou o mundo. É triste. Milhões de crianças morreram. Elas morreram embaixo de prédios por causa das bombas. Mas só uma criança mudou tudo isso. É uma coisa louca e triste. E todo aquele povo que morreu?", questionou.
Karim acredita que depois que a guerra terminar o mundo vai saber o que realmente aconteceu. "Depois da guerra, você vai escutar histórias. Agora você não vai ouvir nada. Mas depois da guerra, os jornalistas verdadeiros vão ali contar as histórias verdadeiras. Histórias tristes demais", profetizou. (A.D.C.)





