Cerca de 20 minutos de socos, pedradas e violência sexual, acompanhadas por uma plateia que, acovardada, demorou a reagir. Esta é a cruel lembrança que Arlete (nome fictício), uma mulher de 52 anos, tem da noite de 16 de março do ano passado. Era uma sexta-feira, dia em que a mãe de seis filhos costumava frequentar os jogos de bingo – uma de suas únicas diversões e onde tinha uma chance de conseguir um dinheiro extra para pequenas compras no supermercado. Naquela noite a sorte parecia estar do lado da ex-boia-fria, que tinha sido contemplada com R$ 425 e, por isso, resolveu se dar um luxo: antes de seguir o caminho a pé para casa, como sempre fazia, decidiu comer um lanche. Antes que conseguisse matar a fome, porém, foi abordada por um jovem em uma moto. Era o início de um pesadelo que mudaria sua vida.
Arlete não se lembra de ter visto o homem antes, nem de como foi levada à Rua Arara Azul, no Conjunto Violin (Zona Norte), nas proximidades da Avenida Saul Elkind, por onde caminhava. ‘‘Me falaram que eu gritava e pedia para ele levar meu dinheiro, mas não fazer nada comigo, que eu tinha filhos, marido. Mas não adiantou. Ele pegou uma pedra grande e bateu com força na minha cabeça. Daí acho que desmaiei, e ele continuou me dando socos, no olho, na boca, nariz, nas pernas, enquanto me violentava. As pessoas falaram depois na polícia que ouviram, mas ficaram com medo porque não sabiam se ele estava armado’’, conta Arlete, emocionada.
O agressor da mulher que sempre trabalhou muito para sustentar a família tinha na época 18 anos. Ela não entende por que ele a escolheu. ‘‘Não quero nunca mais vê-lo na minha frente, mas queria saber por que eu, por que fez aquilo tudo comigo, por que não levou só meu





















dinheiro.’’ Talvez Arlete não tenha nunca a resposta que gostaria, mas hoje luta para juntar seus cacos. ‘‘Minha vida acabou. Durante dois meses eu não reconhecia ninguém, perdi a memória, só chorava, por muito tempo não conseguia tocar minha vida. Tinha medo de tudo, me sentia perseguida.’’
Até hoje, por causa dos muitos socos que levou, ela não recuperou o paladar. Olfato e audição também foram prejudicados. Sente fortes dores na cabeça e nas pernas, mas para ser medicada corretamente precisa conseguir liberação para realizar uma tomografia computadorizada. O pedido, porém, está perdido na burocracia do sistema público de saúde. ‘‘Estou tentando desde setembro’’, diz, resignada.
Enquanto a vida tenta retomar seu ritmo, Arlete também luta para conseguir atendimento para um dos filhos, de 31 anos, que já tinha histórico de depressão e teve uma recaída após a tragédia ocorrida com a mãe; dribla a falta de dinheiro comprando fiado no comércio vizinho, quando não há recurso para as pequenas despesas diárias; e tenta perder o medo de voltar a andar sozinha pelas ruas. Mas acima de tudo, procura superar outra grande decepção, resultante do preconceito. ‘‘Sofri discriminação de muita gente. Me perguntavam o que eu estava fazendo sozinha na rua naquele horário. Mas era meia-noite, e eu estava acostumada a andar a pé sozinha. Do jeito que as pessoas me falavam, parecia que eu tinha induzido aquele homem a me bater, a me violentar. É como eu seu fosse a ré, e não a vítima.’’ (S.L.)

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