Londrina - Na era dos selfies, a tristeza tem que ter fim. O que deve ser encarado como um processo natural e necessário para o amadurecimento psíquico de todo ser humano tende a ser rejeitado pelo comportamento social balizado no sucesso a qualquer preço. É um equívoco, adverte a psicanalista e doutora em saúde mental pela Universidade de São Paulo (USP), Claudia Maria de Sousa Palma. E vira um grave problema social quando um jovem não se sente inserido nesse ideal de felicidade.
"Acho que a gente vive uma época em que é mais difícil para o jovem experimentar o que é inerente ao desenvolvimento de todo mundo, que são condições de tristeza, de inapetência, de não ter vontade, de ter desânimo. Hoje, a sociedade não acolhe essas condições. Você tem que estar sempre muito bem", afirma. "E o jovem, sem esse espaço de acolhimento para isso, sem recurso para lidar, e muitas vezes sofrendo preconceito do seu próprio grupo, às vezes acha que a saída seja atentar contra a própria vida."
A psicanalista associa a prática do suicídio ou as tentativas suicidas a quadros depressivos que podem requerer acompanhamento clínico. Mas faz um alerta: estamos vivendo a "era da patologização". "A gente vive uma época de patologização muito grande também, e isso é perigoso. Tristeza, desânimo das coisas, não são necessariamente uma patologia, isso compõe o ser humano. É uma bobagem a gente pensar que veio ao mundo para ser feliz", ressalta. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que Claudia Palma, que também atua como professora adjunta de Psicologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), concedeu à FOLHA.

Como analisar o crescente número de jovens tirando a própria vida?
Penso que a gente poderia pensar o suicídio abordando a partir de um quadro de depressão. E pensar a depressão que tanto pode ser um evento passageiro, principalmente na vida de um jovem, considerando a crise da adolescência, como também um quadro mais crônico, em que se atenta contra a própria vida. Acho que a gente vive uma época em que é mais difícil para o jovem experimentar o que é inerente ao desenvolvimento de todo mundo, que são condições de tristeza, de inapetência, de não ter vontade, de ter desânimo. Hoje, a sociedade não acolhe essas condições. Você tem que estar sempre muito bem – namorando, estudando, trabalhando, ganhando dinheiro, enfim, tem que estar "up". E o jovem, sem esse espaço de acolhimento para isso, sem recurso para lidar, e muitas vezes sofrendo preconceito do próprio grupo, vira chacota, e às vezes acha que a saída seja atentar contra a própria vida. Acho que a gente vive uma época de patologização muito grande também, e isso é perigoso. Tristeza, desânimo das coisas, inapetência às vezes da vida, isso não é necessariamente uma patologia, isso compõe o ser humano. É uma bobagem a gente pensar que veio ao mundo para ser feliz. A gente trabalha para encontrar momentos de satisfação, mas na maior parte do tempo é preciso lidar com muitos conflitos, frustrações, com coisas que não funcionam. E à medida em que a sociedade não coloca isso como um espaço de vivência, um espaço do devir de todo mundo, quando é tomado na perspectiva da patologia, não te sobra espaço.

É como se não nos fosse permitido ficarmos tristes, angustiados?
Os critérios diagnósticos para a depressão se ampliaram por demais. Então você tem estados de ânimo que podem compor um desenvolvimento na vida e que hoje são tidos muitas vezes como parâmetro de diagnóstico para quadro de depressão. E aí fica difícil. A linha está muito tênue entre aquilo que faz parte da vida e o que de fato é uma patologia. O que acontece nesse caso é que os pais recorrem a ajuda de terceiros.

Os pais não estão sabendo lidar com esses quadros?
Penso que sim. A perda de uma relação afetiva para o jovem pode ser uma experiência muito triste, muito intensa, mas não quer dizer que não vá se recuperar. Mas não se aposta nisso, não se tem um tempo. Acho que essa questão do tempo é muito importante. A gente precisa de tempo para fazer um trabalho psíquico, para dar conta de ultrapassar um conflito. Isso é um problema importante de hoje. Mesmo porque as expectativas dos pais são que os filhos prontamente sejam "the best": têm que estar namorando, estudando, entrar numa universidade; se ele está quieto, já é um problema indicado. Tem a ver com tempo social inclusive. Vamos pegar a década de 60: havia um espaço, isso inclusive era "in". Era "in" você conflitar, pensar se sou ou não sou. Hoje esse espaço está muito reduzido, muito fechado por essa hiperdemanda de sucesso a qualquer preço.

Que as redes sociais potencializam...
Também. Os selfies, todo mundo sorrindo, todo mundo lindo. Você está numa festa péssima, não está acontecendo nada, está tudo horrível, mas você faz um selfie com um copinho, uma turma ao lado, quando na verdade você está absolutamente solitário, as pessoas ao lado não lhe dizem nada. Essa discrepância que vai se estabelecendo entre um vivido que não é verdadeiro e aquilo que de fato começa a te atormentar. O mais importante é que quando a gente pensa em depressão, em tentativa de suicídio, sempre olha as experiências de mal-estar, tristeza, descontentamento, na perspectiva do horrível. E quando você consegue operar com esses quadros, eles lhe dão chance de criação, porque essa experiência muito próxima com o vazio o coloca diante da possibilidade de tentar operar com isso. Tem uma saída de saúde e de operação com a vida que pode ser bastante interessante. Temos que olhar para isso não em princípio como patologia, mas como um processo da vida. Patologia é um segundo momento. E o que a gente tem feito na atualidade é inverter: primeiro, tratamos como patologia, e depois passamos a pensar se não é um processo que faz parte da vida.(D.P.)

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