Com uma depressão grave e síndrome do pânico que a acompanham desde a infância, Maria (nome fictício), hoje com 46 anos, decidiu dar uma última cartada em sua vida há cerca de um ano e meio. ''Não aguentava mais ser vencida pela doença'', desabafa ela, que chegou a tomar uma combinação de oito remédios ao dia. Sem grandes expectativas, ela iniciou um tratamento com estimulação magnética transcraniana e comemora os resultados. ''Nada se compara à qualidade de vida que ganhei. Aquela quantidade de remédios me deixava com os movimentos mais lentos e atrapalhavam minha concentração'', conta a professora. Atualmente, ela toma apenas três e em menor bem dosagem.
Assim como Maria, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 3% da população brasileira (5,4 milhões de pessoas) sofra de transtornos mentais severos que necessitem de cuidados médicos contínuos. De 6% a 10% (entre 10,8 e 18 milhões) acabam sendo vítimas de transtornos causados pelo uso de drogas e álcool. Felizmente, apesar do forte estigma que ainda carregam, as doenças mentais, em grande parte, não são mais consideradas como sentença de sofrimento interminável.
Hoje, além dos inúmeros tratamentos farmacológicos aliados à psicoterapia, técnicas e cirurgias psiquiátricas voltaram a ganhar espaço como alternativas para indivíduos com depressão grave, transtornos obsessivo compulsivos (TOC), bem como comportamento agressivo e automutilador. São técnicas ''não invasivas'' como eletroconvulsoterapia (ECT), estimulação magnética transcraniana; e as ''invasivas'', com a implantação de eletrodos no cérebro para neuromodulação.
Porém, um dos grandes entraves apontado por especialistas ouvidos pela FOLHA se baseia na falta de conhecimento e preconceito, movidos, principalmente, por um passado que teve como expoentes o choque elétrico - praticados nos manicômios - e a lobotomia - técnica que consistia na destruição parcial ou total dos lobos frontais do cérebro por meio de um corte feito com a penetração de um bisturi por orifícios nas têmporas. Procedimento totalmente banido e extinto da prática médica há quase quatro décadas. As duas situações só reforçam a constatação de que este é um dos campos da Medicina em que as correntes religiosas, políticas e ideológicas acabam interferindo.
Ainda que haja uma forte corrente contrária, vários profissionais se amparam na legislação e nas técnicas modernas de mapeamento cerebral para colocar em prática esses procedimentos, sobretudo, numa parcela que não obtém melhora aos tratamentos convencionais, os resistentes ou refratários. ''O procedimento cirúrgico só é realizado após avaliação de diversos critérios'', salienta o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria, referindo-se ao protocolo do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Segundo ele, as técnicas disponíveis oferecem risco praticamente inócuo diante de sua eficácia. ''São procedimentos que usam sistemas modernos de emissão de raios que produzem aumento de calor ou corrente elétrica. Já as cirurgias, por sua vez, são altamente precisas, atingindo uma extensão mínima do cérebro. Em nada se assemelham às lobotomias'', diferencia, dizendo, que, tanto uma quanto outra só são indicadas em pacientes quando caracterizada refratariedade aos tratamentos tradicionais. ''Mas, hoje, está se discutindo, inclusive, se há a necessidade de se esperar tanto em determinados casos.''

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