A diversidade sexual tão inerente aos seres humanos não passa pela cabeça das mães quando nascem os bebês. À medida em que os filhos vão crescendo, porém, algumas delas são obrigadas a pensar sobre assunto. Na adolescência, ou mesmo antes desta fase, muitas mães descobrem que seus filhos não são heterossexuais. Gays, lésbicas, bissexuais, transex, não importa... O que importa é que a reação da família à revelação pode influenciar todo o futuro daquele ser humano que está começando a descobrir as diversas possibilidades ofertadas pela vida.
A empresária Raquel Gomes, de 58 anos, de Curitiba, é mãe de três rapazes: Alexandre, de 36, Rogério, de 34, e Marcos, de 24. Acostumada a viver numa casa com quatro homens, ela criou todos da mesma maneira e nunca identificou nada diferente no comportamento do filho mais novo. "Ele tinha interesses diversos em relação aos irmãos, não gostava de jogar futebol, por exemplo. Mas até ele me contar que era gay, aos 16 anos, nunca imaginei", revela.
Até então, Raquel nunca tinha parado para pensar sobre a possibilidade de ter um filho homossexual. Movida pelo amor a Marcos e pelos filhos de tantas outras famílias, ela se tornou uma militante do movimento "Mães pela Igualdade", formado por mães de homossexuais que militam contra a homofobia e em prol do respeito à diversidade sexual em vários estados do Brasil.
O caminho que culminou no ativismo político, entretanto, não foi fácil de ser percorrido. Raquel conta que a revelação de Marcos aconteceu em um dia em que ela estava no trabalho. "Fui pega de surpresa, mas naquele momento abracei meu filho e garanti que ficaria ao lado dele", recorda. Acreditando que pudesse ser uma "fase", porém, marcou uma psicóloga pensando que poderia ajudar. "Ela me disse que meu filho era resolvido, sabia o que queria. Depois disso, fui tentar entender o que é ser gay", conta.
O primeiro sentimento experimentado foi a culpa. "Não tinha informações e achava que eu era a responsável", diz. Depois, vieram o medo e a vergonha. "As mulheres, quando engravidam, não são avisadas que podem ter um filho gay. Mas acontece e quem não tem informação acaba sofrendo", opina.
Para proteger Marcos, ela tomou a frente da situação e revelou a orientação sexual do caçula aos irmãos e ao pai dele, com quem não estava mais casada. "Eles aceitaram bem. Em seguida, fui contando para o resto da família", revela. Ao mesmo tempo, passou a estudar e se informar sobre o tema, passando a entender que não há "culpados" quando o assunto é a orientação sexual. Foi assim que nasceu uma nova relação entre Raquel e o filho. Nasceu, também, uma militante pelos direitos da população LGBTTT. "Sou feliz, meu filho é gay", enfatiza Raquel, que já ficou famosa no movimento por repetir esta frase.
O engajamento da mãe foi motivado primeiramente pelo medo. "Me preocupo muito com a violência causada pela homofobia", opina a militante, que passou a acompanhar o filho às baladas gays que ele demonstrou interesse em frequentar. "Ele era adolescente e queria sair à noite. Passei a ir junto", relata.
Em seguida, passou a atrair os amigos do filho para casa e acabou se transformando em uma grande mãe para todos os jovens que viviam o conflito de revelar o desejo sexual para os pais. "É muito importante que as mães aceitem a condição dos filhos. Eles precisam desse apoio", acredita. Nessa trajetória, Raquel já conseguiu evitar que dois jovens rejeitados pelas famílias cometessem suicídio. "Só isso já vale toda a luta", diz.
À frente do movimento "Mães pela Igualdade" em Curitiba, ao lado das militantes Marize Felix e Maria Auxiliadora Ferreira, ela tem expectativa de atrair outras mães paranaenses para o movimento, para que elas sejam capazes de acolher os filhos e filhas. "Ser gay é apenas amar diferente. O apoio da mãe é muito importante", insiste.
Com planos de abrir uma casa de passagem para receber jovens homossexuais que são expulsos de casa, levanta também a bandeira da luta contra a homofobia por não aceitar que a intolerância seja a causa de tantos trágicos episódios de violência envolvendo gays, lésbicas, travestis ou transexuais.
Na próxima Parada da Diversidade em Curitiba, marcada para 1º de dezembro, ela espera contar com adesão de muitas outras famílias. "Tudo que faço é por amor ao meu filho e aos filhos de tantas outras mães que não sabem como lidar com a questão da diversidade sexual."

Serviço
Para entrar em contato com as militantes do movimento "Mães pela Igualdade", escreva para [email protected], [email protected] ou
[email protected]
Raquel Gomes escreve uma coluna na revista Lado A (www.revistaladoa.com.br/colunas/coisas-mae)

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