DIVERSIDADE - Em companhia da violência
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de outubro de 2013
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Entre ser estuprada pelo tio e ser morta nas ruas de Londrina, a adolescente Ariadne, travesti de 14 anos assassinada no último dia 15, enfrentou violações de direitos que marcam a vida de milhares de outros adolescentes e crianças que se descobrem transexuais ou homossexuais. Assim como a garota de família humilde que nasceu em um pequeno município do interior do Estado e teve um fim trágico, muitas outras passam a enfrentar uma rotina de preconceitos e exclusões - inclusive dos serviços públicos - ao assumir sua orientação sexual.
Informações apuradas pela FOLHA mostram que Ariadne apanhou, teve que submeter-se a trabalhos cansativos, viveu grandes conflitos, deixou-se vencer pelas dificuldades de frequentar a escola e, por fim, resignou-se ao destino aparentemente inevitável de morte prematura. A causa de seu assassinato ainda é investigada pela polícia, mas um pequeno mergulho em sua história mostra que o crime foi precedido de sofrimentos quase nunca enxergados pela sociedade, acostumada a associar a prostituição mesmo em se tratando de seres humanos em formação apenas a prazer.
Aos 10 anos, Ariadne sofreu a primeira violência sexual. Após o estupro dentro do ambiente familiar, recebeu um rápido acompanhamento psicológico e, nos anos seguintes, viu a sua vida "desandar", como define uma pessoa próxima a ela ouvida pela reportagem. Na sexta-feira, antes de sair de casa pela última vez, trabalhou em uma obra como servente de pedreiro. À noite se arrumou, deu uma flor roxa para a mãe, dizendo que ela deveria colocá-la em seu caixão, e nunca mais voltou.
As investigações feitas pela Polícia Civil de Ibiporã (Norte) indicam que Ariadne foi morta em Londrina e teve o corpo levado para a zona rural daquela cidade, onde foi encontrado. Uma das possibilidades é que a motivação do crime tenha sido uma dívida de "pedágio", cobrança feita por pessoas que controlariam a prostituição na Avenida Leste-Oeste.
Melissa Campus, presidente do coletivo ElityTrans/Núcleo Londrinense de Redução de Danos, conta que sentiu na pele o drama das adolescentes transexuais. "A adolescência é a pior fase, porque temos que nos descobrir sozinhas. Quando a família não acolhe, a rua cumpre este papel. Ali as possibilidades se abrem, é um mundo totalmente novo e atraente, mas as adolescentes não conseguem perceber a situação de vulnerabilidade a que estão se expondo. É a exclusão social e familiar que praticamente as jogam para a rua, em uma fase em que precisam de compreensão, principalmente da família, mesmo que a aceitação seja muito difícil", alerta Melissa. O coletivo liderado por ela trabalha na defesa de direitos e na inclusão de todos, independentemente de sua orientação sexual.


