Nem mesmo as crianças estão livres dos discursos de ódio que permeiam os debates políticos atuais. Foi com surpresa que a professora Juliana Martins ouviu o filho Artur, de 7 anos, cantar uma música ironizando a presidente afastada Dilma Roussef após chegar da escola. Ao questionar sobre onde o garoto tinha aprendido a música, ele respondeu que foi na sala de aula com a professora. "Fui questionar, pois acho que a sala de aula não é o local ideal para tratar do assunto com as crianças, até porque cada família tem uma postura diferente em relação ao tema, mas ela negou", afirma.
Alguns dias depois, Artur chegou chorando da escola com as "provas" de que os amigos não estavam respeitando o ambiente escolar. "Em uma atividade que ia usar recortes de revistas, várias crianças cortaram fotos da Dilma e jogaram na cabeça dele", relata a mãe, que foi novamente conversar com a professora sobre a importância de incentivar a tolerância. "Acho que ela finalmente percebeu que a situação na sala de aula estava pesada", diz.
Paralelamente, Juliana, que dava aulas na mesma escola, comentou no grupo de professores e coordenadores no WhatsApp que aquele não era o local para compartilhar memes políticos com viés preconceituoso. "A coordenadora disse que eu estava errada. Discordei e saí do grupo, deixando meu e-mail para comunicações sobre as atividades da escola", relata. Algum tempo depois do episódio, Juliana foi demitida sem nenhuma justificativa pedagógica. "Disseram que eu não tinha perfil para trabalhar na escola, mas estou convicta que foi por causa das minhas convicções políticas. Até então, não tinha recebido nenhuma orientação ou aviso sobre qualquer reclamação em relação à minha atividade profissional", lamenta ela, que também dá aulas na rede estadual e nunca teve esse tipo de problema. "No estado, a orientação é promover o discurso crítico sem manipular os alunos", compara.
O fato trouxe consequências financeiras para a vida da professora. Além de ter perdido um emprego, ela matriculou o filho na escola por causa da bolsa de 50% oferecida aos professores. "Perdi a bolsa, estou tendo que pagar uma mensalidade que não cabe no orçamento em uma escola na qual não acredito", opina. (C.A.)

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