DISCURSOS DE ÓDIO - 'Gostaria de ser respeitado'
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sábado, 28 de maio de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Quem gosta de futebol e tem um time preferido sabe que acompanhar o esporte sem paixão não tem graça. Quando a rivalidade extrapola as preferências em campo, porém, a falta de cuidado no discurso pode terminar em ofensas pessoais e até rompimento de amizades. Os torcedores do Corinthians sabem bem como é defender um time odiado por todos os outros, afinal, quando os jogadores entram em campo, a torcida se divide entre corintianos e os antis, ou seja, torcedores de rivais que se unem para torcer pela derrota do alvinegro paulista. "Tem gente que fala que o segundo time é o que está jogando contra o Corinthians", observa o servidor público e professor Thiago Augusto Domingos, ele mesmo um corintiano fanático.
Domingos afirma que leva na esportiva as piadas após derrotas e também ironiza os rivais quando outros times perdem. "É uma discussão completamente inútil, mas é divertida", garante ele, que não acompanha futebol em geral. "Só acompanho o Corinthians". As piadas perdem a graça, porém, quando saem do âmbito esportivo e viram julgamentos sobre o caráter do torcedor.
"Já me incomodei com comentários que estigmatizam os corintianos como pessoas desonestas. Tive vontade de julgar de volta, como se a escolha de um time de futebol dissesse algo sobre o caráter das pessoas", critica. Ele afirma que até entende que a ironia tenha objetivo de ser uma "brincadeira", mas o conteúdo dos discursos é ofensivo. "Já tive vontade de responder, mas aí pensei que era só futebol e a discussão não ia levar a nada", pondera.
O fato da torcida ser muito apaixonada e dar retorno midiático, para ele, é uma das causas do "ódio" contra o Corinthians. "Aparecemos mais que os outros, acaba gerando ciúmes", diz. A história do time, que ficou 23 anos sem ganhar um título e mesmo assim manteve a fiel torcida unida, também explica as reações dos "antis".
O preconceito social se materializa quando o adjetivo "favelado" é usado para caracterizar corintianos. Para Domingos, isso remete ao fato do time ter sido fundado por operários e, até hoje, representar uma camada da população mais pobre e oprimida. "O legal é que os próprios torcedores assumiram o fato de ser um time de favela como positivo e virou uma identidade", avalia.
Ele revela também que a própria motivação para acompanhar o time é a paixão. "Não vejo motivos para racionalizar, até porque quando a gente pensa racionalmente sobre futebol, percebe que é apenas um comércio", critica.
Na dúvida, para não criar inimizades, o torcedor prefere assistir a jogos importantes sozinho ou com um grupo seleto de amigos que entendem este "estado de espírito". "Comecei a assistir sozinho justamente para evitar discussões. O bom é que, até hoje, a amizade voltou ao normal no fim do jogo", brinca.
Religião
O office boy Vítor Hugo Oliveira de Paiva, de 17 anos, que também cuida das redes sociais da igreja evangélica que frequenta em Londrina, vive desde que nasceu em uma família que segue valores religiosos. Por conta da opção por compartilhar os mesmos valores da família, tem que lidar com chacota e julgamentos dos amigos. "É normal me chamarem de certinho ou de crente", diz ele, que também defende o casamento tradicional, mas não se sente à vontade para externar essa posição em alguns grupos. "Fora da igreja, muita gente acha absurdo eu dizer que pretendo ter uma família tradicional", afirma ele, que garante respeitar outros tipos de união, como por exemplo o casamento homoafetivo, apesar de não defendê-los. "Assim como respeito outras opiniões, gostaria de ser respeitado", pede.
O rapaz afirma que já foi ridicularizado por ser evangélico e perdeu amizades após expressar a própria opinião. "Sinto muito por não poder professar a minha fé", lamenta.
A estudante de medicina Mylena Lamônica Azevedo da Silva, de 22, sentiu na pele a intolerância e o preconceito na faculdade que frequentou antes de iniciar os estudos na atual instituição. Por ser filha de um pastor, ouvia todo tipo de piadas sobre "receber o dízimo" e outros comentários que insinuavam que o pai ficava com o dinheiro da igreja. "Levava na brincadeira, mas era bem preconceituoso", diz ela, que também precisa se impor para conquistar o próprio espaço nos grupos que frequenta. "Meus colegas, por exemplo, não entendem minha opção de não frequentar baladas e ficam insistindo para que eu mude de opinião", acrescenta.
Convicta sobre os preceitos religiosos que segue, a estudante sustenta debates sobre o tema, mas diz que pensa bem antes de entrar em uma discussão. "Não me posiciono quando acho que a conversa não vai levar a nada", comenta.


