Dilma e Collor podem ser comparados?
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domingo, 27 de dezembro de 2015
Adriana De Cunto<br> Reportagem Local 
Curitiba - O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ) solicitou, junto a outros deputados federais líderes da oposição, uma reunião, para a próxima terça-feira, com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, para esclarecer dúvidas em relação ao rito do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Contrariando a vontade de Cunha, o Supremo decidiu que somente os líderes de partidos podem indicar nomes para o colegiado, sem a possibilidade de candidaturas avulsas. O impeachment da presidente é um dos temas políticos que está mais presente na cabeça do brasileiro neste final de 2015 e provavelmente ainda vai dar muito o que falar em 2016, após o término do recesso do Congresso, marcado para fevereiro. Se há ainda dúvidas em relação à condução do rito, a confusão é maior para o cidadão, principalmente porque que tem mais de 30 anos ainda se recorda do impeachment contra o presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, e depois da renúncia do político que fez carreira em Alagoas e se elegeu presidente construindo uma falsa imagem de "caçador de marajás". Mas os tempos são outros e fontes ouvidas pela reportagem da FOLHA afirmam que a situação de Collor e Dilma é muito diferente.
"São duas realidades bem distintas, a de 1992 e a de 2015", diz o professor de Direito Constitucional e coordenador de pós-graduação em Direitos Humanos da Universidade Positivo (UP), Eduardo Faria. Ele explica que no ano do impeachment do Collor a inflação e a taxa de desemprego no Brasil eram bem mais altas do que atualmente. O docente ressalta que em 1992 havia uma crise econômica efetivamente instalada, enquanto hoje o País caminha para uma crise econômica. Além disso, em 16 de março de 1990, um dia após tomar posse, o ex-presidente provocou a insatisfação e a perplexidade do País ao decretar três dias de feriado bancário e promover o confisco das amadas e até então intocáveis cadernetas de poupança. "Do ponto de vista político, Collor emerge de um partido pequeno (PRN) e não tinha base de sustentação no Congresso", afirma o professor da UP.
Ele analisa que pesar do desgaste da imagem da presidente, a situação é diferente porque Dilma faz parte de um partido político grande, coligado com outros de forte expressão, o que significa base no parlamento, além de apoio de governadores. Outra diferença importante, segundo Faria, é que em 1992, Collor não tinha sustentação social.
Na interpretação do professor de Direito Constitucional, há um outro ingrediente que favorece Dilma: as denúncias que se acumulam contra o presidente da Câmara, citado por investigados na Operação Lava Jato como destinatário de dinheiro sujo e acusado de utilizar o cargo para benefício pessoal. "Eduardo Cunha vulgarizou o impeachment", afirma Faria. Para o docente, a baixa adesão da população na última manifestação em favor do afastamento da presidente Dilma, neste mês de dezembro, se deu justamente porque é Cunha quem está conduzindo o processo na Câmara. Com imagem suja, o presidente da Casa estaria também manchando o próprio processo de afastamento de Dilma. Na opinião dele, com o cenário político dinâmico, atualmente não dá para arriscar uma previsão de qual será o resultado. "O cenário é nebuloso. Não é uma avenida clara, é muito sinuosa", analisa.
O professor de Sociologia Política Ricardo Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), concorda com Eduardo Faria sobre a grande diferença que marca o cenário de impeachment de 1992 e 2015. "São momentos muito diferentes. Em relação a Fernando Collor de Mello, houveram denúncias comprovadas contra ele. Antes houve uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que levantou uma série de irregularidades", explica. Entre essas irregularidades, o pagamento de despesas pessoais de Collor e sua família pelo empresário Paulo César Farias. Oliveira comenta ainda que várias entidades de peso apoiaram o impeachment do ex-presidente, como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sindicatos e movimentos sociais. Hoje não se vê essas entidades se manifestando publicamente pelo afastamento da presidente. "No caso de Dilma, o processo foi deflagrado por Eduardo Cunha, que enfrenta uma série de acusações. É uma tentativa de golpe. Não tem uma acusação de irregularidade", acrescenta.


