A assistente social Joyde Mendes Lone e o empresário Tiago Prado Lone dividem as tarefas domésticas e os cuidados com a filha Luiza, de 1 ano: processo natural
A assistente social Joyde Mendes Lone e o empresário Tiago Prado Lone dividem as tarefas domésticas e os cuidados com a filha Luiza, de 1 ano: processo natural | Foto: Anderson Coelho


Desde quando se casaram, o empresário Tiago Prado Lone e a assistente social Joyde Regina Mendes Lone decidiram que o melhor jeito de terem uma vida plena e satisfeita seria dividir igualmente as tarefas domésticas. Por isso, quando Luiza nasceu, dividir também os cuidados com a pequena foi natural. Como Joyde fazia faculdade à noite, Tiago assumiu os cuidados com a filha ainda bebê. Hoje, para sorte de Luiza – que ainda não completou dois anos – tanto o pai como a mãe são plenamente capazes de acolher todas as demandas da criança.
Tiago conta que a escolha de se tornar um pai pleno nos cuidados teve o principal objetivo de não sobrecarregar a esposa e garantir a ela a possibilidade de crescer e se desenvolver em outras áreas que não só a maternidade. Os benefícios da escolha, entretanto, recaem nele próprio, que não tinha certeza se queria ter filhos e hoje não troca por nada a rotina com Luiza. "Tenho irmãos e agora quero ter mais filhos para dar a mesma oportunidade à minha filha", revela.
Tiago representa a geração de pais que, no caminho inverso feito pelas mulheres há algumas décadas, quando conquistaram o mercado de trabalho e consequentemente a vida pública, ganham cada vez mais espaço na chamada vida privada. "Com a divisão de responsabilidades, a ideia é que todos na família possam fazer o máximo de coisas que querem", justifica ele, que não vê mais espaço para o homem que é apenas provedor na sociedade atual.
Na própria infância, Tiago conta que sempre foi bem próximo do pai, mas reconhece que as tarefas domésticas recaíam sobre a mãe. "Eu faço comida, dou 'mamá' de manhã e à noite, troco roupa, levo para a escola e sou especializado em colocar a Luiza para dormir", brinca. Da experiência de ser pai, garante que vive a transformação das prioridades e se tornou uma pessoa menos individualista.
A esposa Joyde revela que o cuidado de Tiago com a filha e com ela própria é muito emocionante. "Com muita conversa, a gente se organiza para ninguém ficar sobrecarregado, o que é muito bom para reduzir o estresse", conta. A experiência de compartilhar os cuidados com a filha ensinou à mãe, também, que para envolver o parceiro é preciso deixá-lo livre para resolver os problemas. "Cada um tem um jeito de cuidar, é importante respeitar o jeito dele", ensina.

Mudanças sociais

A socióloga Mariana Azevedo, coordenadora do Instituto Papai, afirma que as mudanças sobre o entendimento do que é ser pai derivam, de certa forma, das mudanças em relação ao papel da mulher na sociedade, o que já vem ocorrendo há várias décadas. "Tem a ver com a desconstrução dos papéis de gênero, da imagem do pai provedor, patriarcal e que não se envolve nos cuidados e na vida afetiva dos filhos", avalia.
O referencial de paternidade, neste contexto, passa a ser o do cuidado, ao invés do provimento financeiro ou moral. "A eles, portanto, cabe se envolver e estar presente na vida do filho com uma visão mais igualitária sobre as responsabilidades", afirma, destacando que o "novo pai" beneficia toda a sociedade.
As mulheres, sobrecarregadas como cuidadoras e também provedoras, ganham a possibilidade de viver com menos estresse emocional e físico e sem o peso de serem sempre colocadas no injusto papel de heroínas que dão conta de tudo. As crianças se beneficiam sempre que há mais uma pessoa envolvida nos cuidados. "Não significa que a criança que não tem o pai presente será problemática, mas
várias pesquisas apontam relação positiva quando há duas pessoas atentas às necessidades da criança, estimulando e cuidando", defende.
Crianças com pai participativo têm indicadores de saúde mais positivos e também se beneficiam no aspecto emocional. "A criança que percebe na família o pai e a mãe participando igualmente terá um exemplo mais positivo. Isso independe dos pais serem casados ou mesmo que sejam dois pais ou duas mães", considera.
Para os homens, o envolvimento no cuidado com os filhos traz a possibilidade de desenvolver habilidades em uma esfera da vida que costumava ser muito limitada. "Ele vai estabelecer vínculos fortes com os filhos, o que reflete positivamente no bem estar do homem, que será mais saudável e mais feliz. Temos vários relatos de homens que descrevem a paternidade como gatilho para repensar vários aspectos da vida e rever a própria identidade", conta.
Mariana lembra, entretanto, que promover a maior participação dos pais no cuidado com as crianças não depende apenas de uma vontade individual, mas de políticas públicas que propiciem o envolvimento. Como exemplo de conquistas neste sentido, ela cita a lei que aumenta a licença-paternidade para 20 dias, apesar de acreditar na necessidade de ampliar o direito a todos os trabalhadores, e não só aos ligados às chamadas empresas cidadãs, como prevê a legislação. A promoção do envolvimento dos homens no pré-natal, através do programa "Pré-natal do Parceiro", que inclui exames de saúde também para o pai, é outro avanço, assim como a garantia da possibilidade de guarda compartilhada. "Ainda são necessários muitos avanços, as pessoas precisam pensar sobre isso. A criança é responsabilidade de toda a sociedade", diz, citando um ditado africano para exemplificar tal ponto de vista. "Quando uma criança nasce, é necessária uma aldeia inteira para cuidar dela."

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