A França da Idade Moderna, cuja história remete ao regime absolutista e ao luxo e glamour adotado pelos reis deste período para demonstrar poder, faz parte do dia a dia do advogado londrinense César Augusto Scalassara. Por causa de uma história de amor, ele deixou uma promissora carreira no Brasil para fazer pós-graduação na área de Direito em Paris. A experiência internacional tomou rumo diferente do planejado. Com muita vontade de trabalhar paralelamente aos estudos na universidade de Sorbonne, Scalassara aceitou um emprego no Palácio de Versalhes, atualmente um museu que guarda a história dos anos do Antigo Regime francês. Se encantou com o local e, hoje, é o responsável pela realização técnica das exposições temporárias no patrimônio histórico.
A ida para Paris foi motivada pela mudança da namorada - e atual esposa - Andrezza, que partiu para fazer mestrado na capital da França. ''Tinha vontade de viver uma experiência internacional e, quando vi que ela não voltaria para o Brasil, resolvi me mudar para a França'', revela. Durante o curso, surgiu a oportunidade de trabalho no Palácio de Versalhes, onde começou como agente de serviço de visita guiada. ''A direção gostou do meu trabalho e fui promovido a ouvidor'', recorda. Um ano e meio depois, ele foi transferido para o serviço de exposições temporárias, onde se reencontrou com o Direito.
No setor, ele é responsável por administrar um valor entre 5 e 6 milhões de euros anuais, empregados na realização de uma média de cinco eventos. Além de fazer todo o orçamento e licitar serviços que incluem desde cenografia até transporte e segurança das obras, Scalassara também é responsável por coordenar todas as empresas que operam no ''canteiro de obras'' que antecede as exposições.
''Em época de montagem, chego a perder quatro quilos em dez dias, de tanto andar pelo palácio'', explica, contando que o imóvel tem área total de 700 hectares, incluindo os bosques, os canais e os jardins. O palácio principal, com 700 cômodos, chama atenção pela suntuosidade. O complexo é formado também pelos palácios Grand Trianon e Petit Trianon, conhecido por ter sido a residência da esposa do rei Luis 16, Maria Antonieta.
Scalassara lembra que o Palácio de Versalhes conta 400 anos da história da França. Idealizado no século 17 por Luiz 14, conhecido como Rei Sol pela ânsia em demonstrar poder, se transformou em berço das manifestaões artísticas francesas durante os reinados de Luiz 15 e Luiz 16. ''Muitos objetos que usamos hoje nasceram em Versalhes'', revela, exemplificando que as cômodas foram desenhadas por um artesão para guardar os tecidos de feltro que cobriam os luxuosos móveis da realeza quando não estavam sendo exibidos aos visitantes.
Os brasileiros são muito bem-vindos ao museu, visto que representam a terceira nacionalidade que mais visita o palácio. ''Recomendo aos turistas fazer uma visita guiada, quando é possível conhecer lugares exclusivos.'' A instituição oferece áudio-guias disponíveis também em português para quem prefere se arriscar a conhecer detalhes do jeito de viver da monarquia francesa sem acompanhamento.
O ouro, a madeira cuidadosamente esculpida, a grandeza dos cômodos e a suntuosidade do Palácio de Versalhes provocam deslumbre nos visitantes. ''Os brasileiros ficam encantados, porque o Brasil é um país jovem e sem ligação com a monarquia'', analisa.
Mesmo acostumado à beleza do palácio, Scalassara revela que jamais enjoa de percorrer as galerias. ''É um privilégio enorme. Sempre descubro coisas novas'', revela ele, que já viveu situações inimagináveis para a maioria das pessoas, como passar a noite em Versalhes e ver o sol nascer na famosa Galeria dos Espelhos.
Diante da experiência de trabalhar em um local reconhecido como patrimônio da humanidade, Scalassara elogia o cuidado com a conservação dos museus brasileiros, mas opina que o país ainda ''não se permite dar valor ao que é história''. ''Só cultura e educação fazem o povo reconhecer seu papel e seu valor na sociedade'' defende ele, que também apoia o esforço para democratizar o acesso à cultura. ''Trata-se de um bem público que deve ser acessível a todos.''

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