DESEMPREGO - Sonhos limitados pelo cenário econômico
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de março de 2016
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
As adversidades econômicas e na vida pessoal não assustam o estudante de Engenharia Civil Guilherme de Almeida, de 22 anos, atualmente matriculado no quinto período do curso da universidade Pitágoras, em Londrina. Natural de Imbaú (PR), ainda no ensino fundamental ele traçou o plano de ingressar em uma escola técnica a partir do Ensino Médio. Matriculou-se no Sesi da vizinha Telêmaco Borba assim que entrou no primeiro ano e, com apoio da família, pagava a mensalidade e o custo da van que o levava para a escola todos dias. "Eu queria fazer o curso de segurança no trabalho", conta ele, que teve os planos ameaçados quando, aos 16 anos, o pai perdeu o emprego.
"Meu pai sempre me apoiou muito, não me senti à vontade para continuar dependendo dele e fui atrás de um emprego", recorda Guilherme, que antes de conseguir uma oportunidade em um restaurante na cidade passou a ajudar a mãe a fazer salgadinhos e outras massas para o pai vender. "Até então, eu nunca tinha precisado trabalhar."
O primeiro emprego do jovem estudante era durante a madrugada. Por isso, ele saía do trabalho direto para a escola. Responsável e com boa desenvoltura para atender as pessoas, acabou chamando a atenção de outro comerciante que o ofereceu um emprego para ganhar mais. Com bom rendimento e disponível para fazer horas extras, Guilherme passou a guardar dinheiro quando o pai se recolocou no mercado de trabalho. "Acabei abandonando a ideia do curso técnico porque não podia deixar o emprego, mas consegui guardar R$ 22 mil", relatou.
Com os recursos, conseguiu pagar à vista o primeiro ano de faculdade em Telêmaco Borba. A mudança para Londrina foi motivada pela namorada, que ganhou uma bolsa de estudos na cidade e decidiu aproveitar a oportunidade. "Não aguentei de saudades e fui atrás dela", relata. Em Londrina, ele se matriculou na faculdade e passou a ter que fazer malabarismos para dar conta de estudar e ainda trabalhar na área de vendas de operadoras de telefonia móvel. "Lá na faculdade eu faço de manhã, mas eventualmente posso assistir aulas à noite. Aqui em Londrina, só não estuda quem não quer", diz ele, que teve o talento para vendas reconhecido pelos empregadores e conseguiu novas oportunidades e promoções.
Hoje, a rotina de Guilherme é puxada, mas ele não reclama. Sai cedo de casa para as aulas, entra no trabalho antes das 14 horas e só volta para casa por volta das 23 horas. "Quando precisa, eu estudo de madrugada. Mas minha técnica é prestar muita atenção às aulas para aproveitar o tempo que passo na faculdade", ensina.
O futuro de Guilherme já está planejado. Ele comprou um terreno em Imbaú e, quando terminar os estudos, vai investir no ramo da construção civil. "Meu pai é mestre de obras e vai trabalhar comigo" antecipa.
Sonhos limitados
Em Londrina, a fila do Sistema Nacional de Emprego (Sine) expõe que os sonhos de muitos jovens têm sido limitados pelas dificuldades econômicas que forçam a entrada precoce no mercado de trabalho. Aos 15 anos, Gabrielly Nascimento está em busca de oportunidades para ajudar na renda da família formada por sete pessoas, mas onde só há dois trabalhadores. "Preciso ajudar minha mãe", conta ela, que trabalhou como caixa em uma empresa onde não era registrada e agora procura oportunidade de trabalho formal. Como tem menos de 16 anos, porém, foi orientada a procurar um estágio ou um trabalho como aprendiz.
O sonho da adolescente é cursar Medicina e ela se considera boa aluna para tentar realizá-lo. "O problema é que o curso é integral, não tem como trabalhar. Gostaria de ter a oportunidade de me dedicar apenas aos estudos", lamenta.
Edicezar Tavares da Silva, de 18, procura uma oportunidade no mercado formal, mas esbarra na exigência de qualificação. "Trabalhei como forneiro, mas não tinha registro, então os empregadores não reconhecem", diz. Os primeiros empregos foram conseguidos em supermercados, mas no cenário atual ele avisa que está difícil aparecer uma vaga. Há seis meses sem trabalhar, ele lamenta não poder ajudar a família que, anteriormente, contava com o dinheiro e com o vale-compras que ele recebia para sobreviver.


