DESBRAVADORES - A Amazônia com sotaque do Paraná
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domingo, 18 de dezembro de 2011
Luciano Augusto <br>Reportagem Local
O que o destino separou pela distância de quase três mil quilômetros há mais de 30 ou 40 anos, os laços de sangue não deixaram minguar a saudade dos que permaneceram tocando a vida no Paraná. É bem assim que tem sido escrita a história dos milhares de migrantes paranaenses que entre as décadas de 1970 e 1980 foram tentar a sorte em Rondônia, um território que naquela época era todo coberto pela alta, densa e selvagem floresta amazônica.
Há algumas semanas, a FOLHA partiu rumo ao Centro-Sul rondoniense, região escolhida pela grande maioria dos imigrantes do Paraná que se lançou na colonização do Norte do País. Conforme o Núcleo de Estudos de População (Nepo), da Universidade de Campinas (Unicamp), 36% (mais de 200 mil pessoas) da população que migrou para Rondônia era formada por paranaenses.
Uma gente que queria crescer e se desenvolver junto com uma região amazônica ainda virgem. Muitos tiveram êxito. Outros, nem tanto. Dificuldades de adaptação, todos sofreram: temperaturas de 40 graus; moléstias como malária e febre amarela; ausência de infraestrutura e serviços públicos.
A Amazônia de Desio Adão Lira foi conquistada à custa de coragem. Ele e a esposa Marlene vivem em Rolim de Moura, município de cerca de 50 mil habitantes, desde setembro de 1980. Dois dos cinco filhos são rondonienses. Desio é um catarinense de alma paranaense, que cresceu em Lidianópolis. Em 1970, moço ainda, comprou um caminhão e decidiu guiar rumo ao Norte do País levando mantimentos e migrantes por péssimas e traiçoeiras estradas de terra.
Em setembro de 1980, se instalou em Rolim com a família. Desio conta que o Governo dava terras na região e exigia, em troca, que se derrubasse a floresta. ''O lema era integrar para não entregar.'' O trabalho era duro e perigoso, mas em compensação o desbravador podia negociar a madeira nobre abundante. De parada em parada, seu patrimônio ia ganhando lastro. ''Eu tinha treze caminhões que trabalhavam puxando mogno'', conta. Montou serraria e exerceu cargos importantes no Governo do Estado.
Em 1998, trocou a madeira pela pecuária. Hoje, tem quatro mil cabeças de gado em sua fazenda de 1,5 mil alqueires em Alta Floresta d'Oeste. A propriedade teve recentemente cerca de 300 alqueires cobertos pelas águas do lago de uma das quatro pequenas usinas hidrelétricas privadas construídas na região para abastecer a região.
Na propriedade, ele mantém uma área de floresta que é seu orgulho. Lá, as espécies de mogno, cedro, garapeira que um dia derrubou crescem vigorosas. A área é habitada por uma rica fauna composta por araras, macacos, antas, capivaras, onças e outros bichos.
A esposa Marlene conta que, aos poucos, aprendeu a admirar a região amazônica. Hoje está completamente adaptada. Tanto que é pessoa muito atuante em Rolim: comanda associação de moradores, toca projeto social que atende 270 crianças, trabalha com grupo de idosos e ainda dirige um time de futebol. ''Acredito que todo mundo pode ajudar as pessoas'', diz a paranaense, que tem parte da família ainda vivendo na região do Vale do Ivaí.
O casal admite que fincou raízes profundas em Rondônia, mas confessa que o sangue paranaense, a saudade e as lembranças da infância e juventude falam alto no coração. ''O Paraná está dentro da gente e não dá para esquecer.''
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