No Paraná, a esperança das famílias de crianças e adolescentes desaparecidos concentra-se no trabalho da delegada Nilceia Ferraro da Silva, responsável pelo Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride). À frente da delegacia especializada desde o início do ano, ela está investigando atualmente três casos mais recentes que ainda são possíveis de gerar evidências. O mais recente é o do menino João Rafael Santos Kovalski, que sumiu da própria casa em Adrianópolis, aos 2 anos de idade, em agosto de 2013. Outra investigação é sobre Stefani Vitória Rochinski, que desapareceu aos 10 anos, em 2012, a caminho da escola em Porto Amazonas. Por fim, a delegada cita o desaparecimento de Vivian Florêncio, que sumiu no mesmo dia em que a mãe foi assassinada, em 2005. O pai da criança chegou a ser condenado pelo homicídio, mas a defesa recorreu e ele aguarda nova decisão em liberdade.
A delegada destacou que, apesar de ter havido registro de 254 casos de desaparecimento de crianças no ano passado, todos foram solucionados. Permanecem sem solução 24 histórias registradas desde que a delegacia foi criada, em 1995, motivada pelo desaparecimento do garoto Guilherme Caramês Tibúrcio, que estava andando de bicicleta perto de casa, em 1991, e nunca mais foi visto. A mãe de Guilherme, Arlete Caramês, se dedicou à militância em prol das crianças desaparecidas e chegou a ser vereadora em Curitiba e deputada estadual no Paraná. Guilherme, entretanto, nunca foi encontrado. Seu nome permanece na lista dos desaparecidos do Sicride.
Nilceia explica que a grande maioria de desaparecidos na verdade fugiu de casa. Outro problema comum, segundo ela, é que os pais acusam o sumiço e depois a criança acaba sendo encontrada já sem vida em córregos próximos de casa.
Entre os casos de desaparecimento confirmado, a grande maioria ocorre em lugares conhecidos, como a volta da escola, o trajeto para a casa da avó ou alguma atividade rotineira. "No interior, principalmente, onde há uma aparente tranquilidade, as crianças ficam mais tempo sozinhas", diz. Por isso, ela alerta sobre a importância de não "descuidar". "Os sequestradores sabem como ganhar confiança. É importante alertar que o perigo pode estar em uma pessoa bem vestida, com um cachorrinho bonitinho, que pareça ser legal", adverte.
Esclarece, também, que as investigações são concluídas quando a criança é encontrada – viva ou morta – ou quando, depois de anos, não há qualquer indício sobre o que aconteceu. "No caso de encontrar apenas o corpo, vamos investigar o homicídio", acrescenta.
Infelizmente, o índice de resolução que termina com a identificação da criança viva é muito baixo. "Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica. Por isso insistimos na necessidade de investir na prevenção", comenta. A orientação é conversar com os filhos sobre os riscos e reforçar que nenhum ambiente é totalmente confiável. "As crianças precisam ser ensinadas a relatar fatos estranhos e orientadas a andar sempre acompanhadas, mesmo que seja por um amiguinho", explica.

Irmãos gêmeos

A professora Lorena Cristina Conceição Santos, de 34 anos, mantém vivos na memória todos os detalhes do dia em que viu pela última vez o filho João Rafael Kovalski, que desapareceu aos 2 anos, em 2013, em Adrianópolis. O menino brincava no quintal da casa da avó com a irmã gêmea Poliana, enquanto os pais estavam dentro da casa ajudando com serviços domésticos. Os irmãos mais velhos estavam na casa da família, que fica ao lado. Num determinado momento, a avó viu João Rafael indo em direção à casa e avisou Lorena. Em questão de instantes, a mãe foi atrás do filho, mas nunca mais o encontrou.
No mesmo dia, os bombeiros – que vieram de Curitiba e chegaram cinco horas depois – fizeram uma busca em um córrego próximo, mas nenhum corpo foi encontrado. De concreto, ela cita que algumas pessoas insinuaram que havia um homem interessado em levar o menino para outra família criar.
"Procurei a polícia, mas eles disseram que só poderiam começar as buscas depois de 48 horas. Até hoje não me dão respostas", lamenta ela, que acredita que o filho possa ter sido "vendido".
"É muito difícil aceitar, eu só quero saber o que aconteceu. Cheguei a pensar que seria mais fácil se tivessem encontrado o corpo no rio", desabafa.
Por jamais ter perdido a esperança, Lorena mantém contato constante com a polícia e cobra mais definições sobre o caso. "Preciso de uma resposta, seja ela qual for, para voltar a ter paz e sossego dentro de mim."

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