Cansaço, frio, fome, dias de trabalho perdidos. Para os moradores de pequenos municípios que precisam vir para Londrina para conseguir atendimento com especialistas, uma consulta é também um teste de paciência. O casal Rosana e Luiz Donizete Bortoleti, que mora na zona rural de Alvorada do Sul (Região Metropolitana de Londrina), conhece bem esta realidade. Há anos eles são obrigados a acordar de madrugada e enfrentar longas horas de espera para ser examinados por um médico.
Pouco antes das 8 horas da última quarta-feira Rosana e Luiz tomavam seu café da manhã: um salgado e um refrigerante na lanchonete em frente ao prédio do Consórcio Intermunicipal de Saúde do Médio Paranapanema (Cismepar). Rosana tinha acabado de se consultar com uma alergista, mas a volta para o sítio deveria ser apenas no início da tarde. "Acordamos às 3h30 para poder estar na cidade às 5 horas para pegar o ônibus. É sofrido, mas vale a pena, porque lá em Alvorada só tem três médicos e o atendimento não é tão bom. Não tem nem raio-X no hospital. Em uma emergência é complicado, tem que vir para cá ou para Primeiro de Maio, que fica a uns 100 quilômetros de onde a gente mora. Dá pra ficar preocupado", relata Bortoleti.
A lavadeira Sidneia da Silva, de Sertanópolis (Região Metropolitana de Londrina), também já enfrentou este sacrifício muitas vezes, e não foi diferente esta semana. Ela trouxe a filha Maria Eduarda, de cinco anos, para consulta com um dermatologista. "Lá na minha cidade só tem clínico geral", explicou Sidneia, que saiu de casa com a filha às 4h50. "O ônibus de volta sai só às 13h30. Enquanto isso a gente fica por aqui, na rua. Quando tem consulta em Londrina a gente perde o dia de trabalho", contou, logo depois de comprar um lanche para a filha.
Além do incômodo de ter que sair de casa muito cedo, a dona de casa Aparecida da Silva Almeida, de Lupionópolis (Norte) destacou o risco que esta população corre, viajando muitas vezes em ônibus e vans velhos. "Tempos atrás a ambulância bateu com vários pacientes dentro. É duro, o bom seria ter atendimento na própria cidade", argumentou ela, que veio acompanhando o filho que teve cólica renal dias atrás. Aparecida não é a única que gostaria de ter atendimento com especialista mais perto de casa. Todos os pacientes ou acompanhantes ouvidos pela FOLHA foram unânimes nas queixas contra um sistema que associa o direito à saúde a sacrifícios. (S.L.)

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