Em Londrina, onde a Cáritas – instituição ligada à Igreja Católica - realiza o acolhimento e encaminhamento de refugiados, o aumento da procura pelo serviço cresceu de forma assustadora. Enquanto em 2010 foi registrado apenas um atendimento a uma pessoa de Guiné Bissau, no ano passado foram 136 casos e, apenas até agosto de 2015, o total de 210 pessoas atendidas.
A maioria vem do Haiti e de Bangladesh, mas desde o ano passado houve o atendimento de quatro sírios. A reportagem da FOLHA tentou contato com estes refugiados vindos da Síria e chegou a conversar com um deles, que preferiu não dar entrevista por medo de prejudicar membros da família que permaneceram no país de origem. Parentes e amigos que fazem parte da rede de apoio a essas pessoas em Londrina também se mostraram arredios ao contato com a reportagem, indicando que o terror instalado na Síria causa medo mesmo a milhares de quilômetros de distância.
Márcia Ponce, coordenadora executiva da Cáritas, estima que haja muito mais refugiados na região. "Só temos contato com as pessoas que nos procuram", diz, destacando que outros órgãos também realizam o encaminhamento e muita gente chega de outras regiões com a documentação já resolvida. Ela exemplifica que apenas no Jardim Santo Amaro, em Cambé, há 58 estrangeiros inscritos no curso de português oferecido por voluntários. "Temos solicitação de aulas no Jardim Ana Rosa (também em Cambé) e a paróquia de Rolândia tem um curso com 12O alunos", destaca.
Márcia esclarece que os haitianos não são considerados refugiados, mas os bengaleses se enquadram na definição por relatarem perseguição religiosa e política. Os colombianos e bolivianos têm direito a entrar no Brasil por causa do acordo de permanência do Mercosul. Segundo ela, porém, têm perfil de refugiados por relatarem perseguições de facções criminosas.
Para Márcia, o aumento do número de refugiados na cidade reflete a situação do mundo. "Os países mais pobres sofreram exploração dos países mais ricos durante muito tempo. Agora chegou a hora do mundo pagar o preço por tantos anos de exploração. A Europa, por exemplo, é responsável por muitos problemas na África e Oriente Médio", critica.
O Brasil, neste contexto, começa a viver uma inversão de papéis. "Nós é que mandávamos nossos filhos para fora e agora estamos recebendo uma população mais pobre e mais excluída que nós mesmos. O desafio é acolher com dignidade sem se tornar opressor", reflete.
Profunda conhecedora da situação dos refugiados, com quem convive diariamente, ela atesta que eles vivem em situação de muito sofrimento. "Muitos perderam a família e tudo que tinham. Acompanhamos casos de pessoas que estão em um forte processo de depressão", diz.
Outro motivo de tristeza é a descoberta de que foram vítimas de tráfico internacional de pessoas, mais comum entre bengaleses e haitianos. "A embaixada do Brasil no Haiti concede 50 vistos por dia e a fila na porta é de duas mil pessoas. Isso provoca corrupção na própria embaixada", denuncia.
Ela lamenta, também, a conhecida existência de coiotes ganhando muito dinheiro sobre aqueles que decidem deixar seus países. "Isso é ainda mais triste. São explorados que se exploram uns aos outros", define. (C.A.)

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