Tablets para todos os professores do ensino médio, rede sem fio em pelo menos metade das escolas, milhares de novos computadores até o final de 2013. Esta é a promessa do governo do Paraná para mudar a realidade das escolas públicas do Estado e inseri-las de vez no universo tecnológico. Resta saber se os alunos conseguirão, de fato, se beneficiar das muitas possibilidades oferecidas por este tipo de recurso, que na maioria das instituições particulares já não é novidade.
A dúvida se explica por problemas hoje vividos em colégios públicos, relacionados, principalmente, à infraestrutura precária, ao número insuficiente de computadores para todos os alunos e à resistência de professores acostumados a uma outra forma de ensinar, distante de tanta tecnologia. O relato de um professor temporário, que já passou por várias instituições de ensino fundamental e médio de Londrina, e a realidade constatada pela reportagem em alguns colégios, dão uma mostra do que pode se tornar um empecilho aos avanços das práticas pedagógicas.
''Nas escolas que trabalhei, percebi que a TV Pendrive (televisor de 29 polegadas com entradas para VHS, DVD, cartão de memória, pendrive e saídas para caixas de som e projetor de multimídia, desenvolvido exclusivamente para o Estado do Paraná) é mais utilizada que os computadores dos laboratórios de informática, mas mesmo assim, muitos professores ainda têm dificuldade de converter arquivos de um tipo de mídia para outro, e fica restrito à exibição de filmes em DVD'', relata o professor, que prefere não se identificar.
Ele revela ainda que, em uma escola que lecionou, era uma ''guerra'' conseguir usar a TV, que quase sempre não funcionava por falta de uma peça básica: o controle remoto. ''Ou ninguém conseguia encontrá-lo, ou estava quebrado. Uma vez um outro professor até tentou improvisar com um controle universal, mas não deu certo. Era comum a gente preparar a aula em casa e, quando chegava lá, não poder usar o equipamento.'' O professor é defensor dos recursos tecnológicos como uma poderosa ferramenta de ensino, mas lamenta que muitas escolas não consigam aproveitá-los como deveriam.
Um problema comum, segundo ele, é o número de alunos nas turmas ser maior que o número de computadores disponíveis nos laboratórios de informática. Além de dificultar o uso dos equipamentos por todos, isso faz com que o professor sozinho não consiga ter domínio da turma e nem garantir que os alunos usem as máquinas apenas para fins didáticos. ''Há também o medo de algum aluno causar danos ao equipamento. Uma vez ouvi de uma diretora que, se um dos alunos quebrasse qualquer coisa no laboratório, eu teria que arcar com as despesas do conserto'', revela.
O professor reconhece que o governo oferece treinamentos aos docentes, mas alguns sentem-se temerosos em mudar a metodologia que usaram por anos a fio. ''Tem aqueles que não querem saber nem de lançar as notas on-line, por exemplo, alegando que vai dar mais trabalho.''
Este, porém, é um caminho irreversível, que terá que ser trilhado em conjunto pelas crianças que já nasceram cercadas de recursos eletrônicos e pelos professores, mesmo que sejam ''imigrantes digitais'', como define Patrícia Konder Lins e Silva, uma das fundadoras da Escola Parque, no Rio de Janeiro, uma referência em ensino liberal. ''As crianças são nativas digitais, ao passo que os professores são imigrantes. E como todos imigrantes, falam com sotaque, lembram ainda da terrinha, da cultura anterior. Em muitos casos, têm saudade do tempo em que não tínhamos telefone, não tínhamos computador, não tínhamos celular. Só que o mundo não vai para trás, não é mesmo?'', ponderou Patrícia em recente entrevista ao jornal O Globo.
A educadora argumenta que o mundo está passando por uma crise de paradigmas, que também afeta a educação. A tecnologia, constata ela, trouxe uma nova forma de lidar com a realidade e de ver o mundo. ''As crianças chegam à escola muito mais bem informadas do que jamais estiveram. E chegam mergulhadas num sistema que, em muitos casos, ainda tem um quê de novidade para o professor. O choque é inevitável.''

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