Por medo de ser julgada no trabalho, uma contadora de 38 anos, que preferiu não se identificar, esconde dos empregadores há 12 anos o diagnóstico de depressão e síndrome do pânico. Funcionária de uma grande empresa multinacional, ela não enxerga no ambiente corporativo a possibilidade de compreensão e acolhimento. "Seria uma profissional como tantas outras se não carregasse o 'fardo' que é conviver com pânico e depressão de forma camuflada", afirma.
Em tratamento com psicoterapia comportamental por uma década, associada a homeopatia e florais, a contadora aprendeu a conviver com os sinais das doenças e a entender os gatilhos que as desencadeiam. O autoconhecimento, porém, não evita o sofrimento no trabalho. "A realidade é que o mundo corporativo não aceita fragilidades. Simplesmente não há espaço para momentos de fraqueza e qualquer comportamento neste sentido é visto como má performance. O profissional tem metas, objetivos, mas é cobrado para ir além. Sempre reforçam que há espaço para melhorar, mesmo que você esteja entregando os resultados", desabafa.
Neste contexto de pressão, ela conta que não é raro passar mais de 12 horas no escritório. E, quando está fora, há o telefone corporativo e outras tecnologias que garantem o acesso. "Não há tempo para espairecer, ficar com a família com tranquilidade, estou sempre pensando em trabalho", lamenta ela, que está certa de que poderia ter menos sintomas de depressão e pânico se fosse menos cobrada. "Após a euforia para entregar resultados e ser um funcionário classificado como excelente - o que garante bônus financeiros -, chega o desânimo, a depressão e a sensação de inquietação", diz.
Pelo sofrimento apresentado, a contadora já foi aconselhada pela terapeuta a se afastar do trabalho por um período. Mas, por saber que a empresa associa doenças a um possível declínio de performance, preferiu não recorrer à licença. "As grandes empresas querem vencedores. Se afastar para cuidar de uma doença psíquica é o oposto disso, na visão delas. Há muita falta de informação", considera.
Por observar como a empresa lida com outros funcionários que demonstraram fragilidade, ela está convicta de que seria demitida no retorno de um possível afastamento. "No mundo corporativo as pessoas ainda associam doenças psicológicas com falta de garra ou objetivos, como se fosse uma fraqueza", condena.
Apesar de ocupar um cargo de liderança, ela tenta não extrapolar demais o horário de trabalho em função da vida familiar, mas demonstra comprometimento em outros aspectos. "A única maneira de evitar que o trabalho se torne um dos principais gatilhos das doenças é o empresariado mudar a forma de se relacionar com os funcionários, sabendo que não dá para padronizar comportamentos e impor metas inatingíveis. É preciso aceitar que todos são humanos e que a fragilidade faz parte disto", defende.

Exposição a riscos

Foi por meio do departamento de Recursos Humanos da empresa onde trabalhava que o motorista profissional Antônio, de 48 anos, buscou ajuda profissional e recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. A doença foi descoberta há dez anos, quando ele teve uma discussão "acalorada" com um funcionário de uma repartição pública e percebeu que não estava em boas condições. "Eu achava que era apenas nervoso, mas minha supervisora me aconselhou a buscar um psiquiatra", conta.
Até se conscientizar sobre a doença, porém, Antônio revela que correu riscos. "Sofri três acidentes de trânsito que poderiam ter sido evitados", recorda o motorista, que ficou em licença do trabalho por seis meses, voltou à função por mais cinco anos e, desde 2010, quando foi diagnosticado também com esquizofrenia, acabou definitivamente afastado.
Os gatilhos que desencadeavam as crises eram sempre associados à vida profissional. "Eu tinha que lidar com muita gente diferente, cumprir horários. Acabava me estressando demais", diz. Outro motivo eram os negócios "malfeitos" que o levaram a perder dinheiro. "Hoje, uma das minhas filhas é minha tutora. Não tenho capacidade para lidar com as finanças", conta.
O afastamento definitivo do trabalho foi motivo de muita tristeza para Antônio, que agora participa do programa de acolhimento diurno do Centro de Atenção Psicossocial (Caps). A segunda esposa, que ele conheceu durante o atendimento, é responsável por conduzi-lo ao tratamento todos os dias. "Me separei da primeira esposa há 15 anos porque era um transtorno na vida dela", conta. Prestes a se aposentar, Antônio acredita que poderia ter tido uma vida produtiva por mais tempo se tivesse sido diagnosticado na juventude. "Quando descobri, já era tarde", lamenta ele, que aguarda o encerramento do processo de aposentadoria para finalmente oferecer uma vida mais tranquila à família.

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