Paulo (nome fictício) sempre usou drogas de forma recreativa, mas ficou dependente do crack após trabalhar em uma atividade que exigia contato com usuários pesados da substância. "Passei a ter contato com usuários e perdi o medo da droga. Como eu já usava outras drogas eventualmente, inclusive injetáveis, experimentei porque achava que não ficaria dependente", lamenta.
Cada vez mais comprometido pela dependência, ele se preocupou com atitudes que passou a tomar para conseguir dinheiro, inclusive com a prática de pequenos delitos. "Sempre trabalhei, mas não era suficiente, então dava golpes. O crack afeta os valores da pessoa", diz ele que, por isso, decidiu buscar o primeiro internamento. "Fui para um hospital psiquiátrico, mas com 17 dias acabei expulso. Eles me enchiam de remédio e me colocavam na frente da TV assistindo o desenho do Pica-Pau. Era uma cadeia sem celas", relata o rapaz, que reivindicou um tratamento mais eficiente e, como resposta, recebeu "alta" e uma receita para comprar remédios.
"Voltei a usar drogas e a reação foi muito mais forte. Em 15 dias, não aguentei e procurei uma comunidade terapêutica", conta. A entidade, segundo ele, não estava preparada para receber um usuário de crack homossexual. "Enquanto eu 'pagava' com meu auxílio-doença, fui bem tratado. Quando parei de receber era obrigado a cozinhar das 9 horas da manhã às 8 da noite para todos os moradores", denuncia .
Paulo não tem religião e se incomodava com o discurso religioso das três comunidades por onde passou. "Também tinha expectativa de ter atendimento especializado com psicólogo, o que só aconteceu três vezes nos nove meses que fiquei em um dos locais." Outra queixa é com relação à sexualidade. "Fui vítima da homofobia de um coordenador que me humilhou. É cruel o jeito como lidam com a homossexualidade", opinou ele, que também frequenta grupos de apoio nos momentos em que está "limpo". "O problema é que as recaídas são muito fortes", lamenta ele, que continua na luta contra o crack porque tem medo dos efeitos da droga no próprio caráter. "O problema é que não me enquadro nas clínicas e comunidades. Oferecem um tratamento padrão para quem está fora do padrão. As pessoas que estão loucas pelas ruas não podem ser padronizadas", questionou.
Ele denuncia também que os serviços oferecidos por algumas comunidades funcionam mais como um "analgésico" para as famílias do que uma solução para o problema. "Não há garantia de nada, e muitos te tratam com desrespeito e autoritarismo. Aí o tratamento não dá certo e a culpa é do usuário que recaiu."
Paulo tem expectativa de, um dia, ter acesso a um tratamento que considere suas características individuais e que seja oferecido por profissionais especializados. "O usuário de crack sofre muito, usa dinheiro de comida para comprar droga. Eu sei que as pessoas sempre esperam o pior de mim, por isso continuo me esforçando." (C.A.)

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