Demora agrava atendimento pelo SUS
Tão difícil quanto integrar uma fila à espera de um transplante, é aguardar para realizar uma cirurgia aparentemente simples e sem riscos, mas que pode se agravar com a demora em conseguir atendimento. A situação é enfrentada pelos milhares de pacientes que utilizam o Sistema Único de Sáude (SUS). Somente no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, o maior hospital público do Estado, cerca de mil pessoas fazem parte de uma velada fila para receber os mais variados procedimentos cirúrgicos.
O critério de atendimento é estabelecido no ambulatório ou no Pronto-Atendimento, de acordo com a gravidade do caso. O problema é que se o paciente demora para ser atendido, a doença pode piorar. Com isso, vai precisar de maior tempo de internação no hospital, o que interfere na rotatividade (menos pessoas deixam de ser atendidas, por exemplo) e onera ainda mais a instituição. É uma bola de neve, um circulo vicioso, como define o cirurgião-chefe do Serviço de Cirurgia Geral do HC, Sérgio Brenner.
O médico explica que o excesso de demanda é um dos fatores que contribuem para que essa situação aconteça. A procura é maior do que o serviço pode oferecer, relata Brenner. E não há como dar vazão a toda essa demanda, conclui. Para ele, esse é um problema mundial, que todas as pessoas enfrentam quando se trata de serviço médico gratuito. No caso do HC, a crise financeira que o hospital atravessa também pode ser um agravante.
Mas a situação, pelo menos do HC, pode melhorar se alguns fatores forem redimensionados, como garante Brenner. Podemos ampliar em pelo menos 35% o número de cirurgias sem aumentar a equipe. O que impede que a capacidade de operar alavanque, segundo Brenner, é um tripé formado pela falta de leitos, de rotatividade de pacientes e de agilidade nos exames.
O HC realiza cerca de 800 cirurgias por mês. Somente no ano passado, foram feitas 7.045 cirugias. Foram 832 cirugias gerais, 816 para resolver problemas no aparelho digestivo e 290 na área de oftalmologia, para citar as mais procuradas. Não há uma estimativa de quantas deixaram de ser realizadas por falta de vagas ou foram adiadas, mas Brenner admite que muitos procedimentos são adiados por tempo indeterminado.
Nesses casos, esclarece o médico, um paciente de menor risco pode se transformar em um de alto risco. De cada 200 pessoas que aguardam uma cirurgia para retirada de pedra na vesícula, por exemplo, duas apresentam complicações. Por isso, o paciente vai precisar de mais medicamentos e de um tempo de permanência maior, esclarece.
A comerciante Regina Lopes, 40 anos, espera há dois anos por uma cirurgia de redução de estômago. Essa espera é a pior coisa que existe. Ela conta que quase todos os meses passa pelo processo ambulatorial e realiza os exames pré-operatórios, mas quando chega no dia marcado, sua cirurgia é adiada. Regina sofre de obesidade mórbida e a urgência de sua operação foi determinada pela equipe médica do HC.
Segundo a comerciante mais cerca de 80 pessoas estão na mesma situação que a dela. Foi criada até uma associação para tentar dar agilidade para esse processo, revela. O maior problema nesse processo de espera, de acordo com a comerciante, é que algumas doenças interferem na auto-estima da pessoa, no convivío social e profissional. Assim, enquanto aguardam a cirurgia, os pacientes devem lidar também com a ansiedade e com o tempo que separa a esperança de uma vida melhor.





