De Copa em Copa - Do rádio à imagem em HD, uma viagem de 64 anos
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sábado, 17 de maio de 2014
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Com o Brasil voltando a receber uma Copa do Mundo, após 64 anos, é inevitável fazer comparações entre o País que sediou o torneio de 1950 e o que se prepara para ser palco novamente do maior evento do futebol mundial. A diferença na tecnologia que os paranaenses utilizaram para acompanhar aquela Copa e a que será usada na que começa mês que vem é um exemplo do quanto as coisas mudaram no País e no mundo no intervalo entre os dois campeonatos.
Em 1950, Londrina, que tinha sido fundada apenas 16 anos antes, tinha 71,4 mil habitantes, a maioria (52%) residindo na zona rural. Muito diferente da metrópole interiorana urbana de mais de 500 mil moradores de hoje, que como todo o Brasil vai ver os jogos do Mundial em imagens de alta definição enquanto os primeiros londrinenses sofreram a perda da Copa de 1950 pelo rádio.
O aposentado Antenor Genor Capello, 81 anos, tinha 17 na época. Ele morava em Londrina desde 1938, quando a família se mudou de Coroados (SP) para o eldorado paranaense.
Capello conta que em 1950 já trabalhava como mecânico, profissão que exerceria até se aposentar. "Ouvimos os jogos da Copa pelo rádio. A maioria era rádio a pilha, porque nem todo lugar tinha luz. Os bairros não tinham luz nem água, era tudo água de poço", recorda. Ele descreve que os londrinenses ouviam os jogos em casa, ou se reuniam em bares para acompanhar as transmissões. Estabelecimentos como Brasserie, Pinguim e Líder, na Avenida Paraná, instalavam alto-falantes na calçada e a maioria dos torcedores ficava do lado de fora do bar ouvindo o jogo.
O aposentado diz que a avenida era o grande ponto de encontro da cidade de menos de duas décadas de fundação. "No domingo à noite, o povo ia passear na avenida. Quem tinha namorada, andava ali de braço dado, ia até o fim da avenida e voltava. É meio chato dizer isso, mas havia uma divisão. No lado esquerdo da avenida, ficavam os negros. E do lado direito, o lado da praça, ficavam os brancos", explica Capello.
A família do jovem mecânico morava na Rua Belo Horizonte, no Centro, após ter residido na Vila Nova logo que se mudou para Londrina. Capello acompanhou alguns jogos em casa e outros na Avenida Paraná. Mas a comoção da primeira Copa no Brasil não se compara à de 2014, diz ele.
"O pessoal comentava, mas não era esse povo fanático como hoje", lembra. Apesar disso, houve muita lamentação e alguns quase foram às vias de fato depois que o Brasil perdeu a final para o Uruguai. "Na hora ficou todo mundo triste. Ficou um clima ruim, todo mundo desanimado. Tinha gente gritando, chorando. Outros tinham tomado umas pingas. Chegou a ter discussão, ameaça de briga, alguns já falavam que tinha que substituir o técnico. Mas não aconteceu nada. Uns dias depois, o clima já era de gozação. Tinha gente que dizia: E o seu time, hein? Perdeu!. E o outro respondia, brincando: Ah, é? O seu também!", lembra o aposentado.
Capello afirma que, ao contrário do que aconteceu nas grandes cidades brasileiras, os torcedores londrinenses não "crucificaram" o goleiro Barbosa, que durante décadas foi acusado de ter falhado no segundo gol uruguaio. Por um motivo simples: como a difusão de informações era bem menor naquela época, muitos pés-vermelhos sequer sabiam quem eram os jogadores da Seleção. "O pessoal não conhecia bem os nomes. E a cidade estava começando, crescendo. Não era um povo muito entrosado, unido", explica.
Desfile cancelado
Gogliardo Maragno, 82 anos, corretor aposentado, relata que ouviu os jogos do Brasil na Copa de 1950 em frente ao bar Pinguim. Na época, ele tinha 18 anos e trabalhava em uma concessionária de carros. A família, que havia se mudado de Ipaussu (SP) para Londrina em 1940, sempre foi fanática por futebol.
"Sei a escalação da Seleção de 50 até hoje: Barbosa; Augusto, Juvenal e Bigode; Bauer e Danilo Alvim; Zizinho, Jair, Friaça, Ademir e Chico. O técnico era o Flávio Costa. Meu pai jogou futebol no Esporte Clube Londrina, que não tinha nada a ver com o Londrina de hoje, até 1945. O campo era onde hoje fica a cooperativa (Integrada, na Rua São Jerônimo, no Centro)", diz o aposentado.
"Foi uma tristeza geral (após a derrota para o Uruguai). O povo já tinha preparado um desfile para comemorar o título, que ia sair da frente da Praça da Bandeira (ao lado da Catedral). Aquela noite, pouca gente saiu de casa", recorda.
"O entusiasmo era muito grande, porque o Brasil estava ganhando de todo mundo. Chegou na final e perdeu. Mas não era como hoje, que tem bandeira, camisa, um monte de coisa. Era tudo muito diferente. Pouca gente gostava tanto de futebol como tem hoje. Agora é muito fanatismo", compara.
Os dois não fazem grandes planos para acompanhar a Copa desse ano. Capello, que diz não ser "muito chegado" em futebol, pretende reunir a família para ver os jogos da Seleção em uma chácara na Avenida Saul Elkind. "Vai ter um churrasquinho", avisa. Maragno planeja ver os jogos em casa. Faz um alerta, com uma pitada de ironia: "Tenho esperança de que o Brasil vai ser campeão. Como eu tinha em 1950..."
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