Da luta armada à luta política
Enquanto Londrina se reunia na Avenida Paraná para pedir eleições diretas e outras cidades mobilizavam em torno de iniciativas semelhantes, o último presidente militar, João Batista Figueiredo, agia como se nada de novo estivesse acontecendo. Na mesma noite do comício em Londrina, o general que chegou a declarar que preferia o cheiro de cavalos ao de pessoas, recebia com um banquete o rei Carlos Gustavo, da Suécia, como noticiou a Folha de Londrina. Contraditoriamente, Figueiredo aproveitou a oportunidade para exaltar as conquistas democráticas suecas.
O comportamento do então presidente não deve ter surpreendido outro militar de ideias bem mais revolucionárias. O catarinense Amadeu Felipe, que passou boa parte da vida no Rio Grande do Sul, apoiou a Campanha da Legalidade capitaneada por Leonel Brizola para manter João Goulart no poder, liderou a Guerrilha do Caparaó, foi preso, torturado e veio refazer a vida em Londrina, estava entre os integrantes do comitê suprapartidário formado para organizar a campanha local das Diretas, como representante do PCB.
Antes, no dia 12 de janeiro daquele ano, Amadeu participou do primeiro grande comício do País, realizado em Curitiba. Em Londrina, ele foi um dos que subiram ao palanque e discursaram. Uma semana depois, participaria ainda do comício da Candelária, no Rio de Janeiro, que reuniu um milhão de pessoas. À época o militar reformado era subsecretário de Indústria e Comércio do Paraná, e foi chamado por José Richa para acompanhá-lo à capital fluminense por ser um velho conhecido de Leonel Brizola.
Da participação neste evento histórico, ele se lembra de uma visita, ao lado do governador do Paraná, ao Jornal do Brasil, horas antes da mobilização na Candelária. Richa queria visitar a Condessa (condessa Maurina Dunshee Abranches Pereira Carneiro, proprietária do periódico), e chegando lá deparou-se com seu genro, Manuel Francisco do Nascimento Brito, assustado com as dimensões que o movimento estava tomando. Diante do político paranaense, Brito chegou a sugerir uma intervenção no Rio, para conter Leonel Brizola, sob o argumento de que "estava acontecendo algo que não dava mais para suportar". A ideia foi rechaçada por Richa, que na sequência seguiu para o comício histórico, com Amadeu Felipe ao seu lado.
"O que nós e todo o povo desejávamos era o aprofundamento do projeto democrático, onde a população tivesse melhores condições de vida.(...) Sabíamos que aquele era um novo momento, de sair da luta armada e voltar para a luta política, por meio da qual poderíamos começar a construir uma nova nação. E foi o que começamos a fazer. Mas infelizmente o Tancredo faleceu, e quem foi para o governo foi o presidente do PDS, José Sarney. Ele foi o desastre que ninguém imaginava ser possível acontecer depois de toda aquela mobilização. Ficou claro que tratava-se de uma nova composição que estava se abrindo, e que nada aconteceria aos torturadores, nada aconteceria sob o ponto de vista do progresso social."
Segundo Amadeu Felipe, havia uma grande expectativa, pairando sobre o País, que vinha desde 1964. "Tínhamos colocado as esperanças em Tancredo, que era mais inteligente, mais comprometido com o projeto democrático. Vários companheiros nossos haviam sido assassinados, e naquele momento pensamos que todo aquele sangue não tinha sido em vão. Por isso foi uma decepção muito grande."
Amadeu Felipe lembra a sensação que sentiu após a morte de Tancredo Neves: "Não merecemos só isso. O Brasil merece mais. O povo brasileiro é muito bom", pensei. Para ele, porém, o movimento das Diretas teve o grande mérito de abrir o caminho para importantes conquistas. "O fato de estarmos conversando aqui já mostra que de lá para cá há uma nova realidade na nação brasileira. Houve a ascensão da classe trabalhadora a um patamar mais elevado do ponto de vista econômico e financeiro. E isso não depende de partido político, foram conquistas do trabalhador", pondera. "Da mesma forma, as organizações políticas têm mais liberdade. Por exemplo, eu sou comunista e hoje posso dizer que sou, posso participar de reuniões, que podem acontecer sem problemas. Antigamente esta possibilidade não existia", recorda-se. Houve, para Amadeu Felipe, uma mudança de qualidade da organização popular. "Mas ainda estamos muito longe do que a nossa população tem direito e merece." (S.L.)





