Sair às ruas para defender bandeiras, expor a própria fé ou simplesmente se divertir. Em tempos de comunicação instantânea via redes sociais, poucas horas são necessárias para mobilizar pessoas que compartilham os mesmos princípios e ideais em nome de uma causa. Os que não se contentam com o chamado ‘‘ativismo de sofᒒ – caracterizado pelo compartilhamento de conteúdos engajados pela internet sem qualquer ação real – ganham as ruas em um fenômeno que se tornou típico deste início de século 21. São as ‘‘marchas’’, que levam para a ‘‘vida real’’ todo o conteúdo engajado das redes.
E as motivações são muitas. A partir de bandeiras feministas e em defesa do respeito ao corpo feminino, as manifestantes da Marcha das Vadias, por exemplo, tomam as ruas vestidas de forma a expor o corpo. Partidários da descriminalização da maconha também ganham a cidade organizados na Marcha da Maconha. No sentido oposto, fiéis das igrejas evangélicas se organizam para demonstrar suas crenças na chamada ‘‘Marcha para Jesus’’.
Em Londrina, sete mil pessoas saíram às ruas há poucas semanas para professar a fé em Jesus Cristo. As redes sociais, de acordo com pastor Fernando Luís Pinto, presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Londrina e Região Metropolitana, foram fundamentais para o sucesso do evento. ‘‘Conseguimos mobilizar muitas pessoas nos vinte dias anteriores ao evento. Além disso, o custo foi muito mais baixo’’, opina ele, que contou inclusive com a ajuda de voluntários que se ofereceram via Facebook para participar da organização.
A ‘‘Marcha para Jesus’’, segundo o pastor, não tem o objetivo de ‘‘protestar, falar mal do governo ou dos políticos’’. ‘‘Saímos às ruas para abençoar nossa cidade e mostrar a adoração a Jesus’’, diz. Em Curitiba, segundo o religioso, a edição de 2013 da marcha reuniu 150 mil pessoas.
Também na capital paranaense, ativistas em defesa da descriminalização da maconha realizam há cinco anos a Marcha da Maconha. A edição deste ano mobilizou mil pessoas, o dobro do grupo que foi às ruas no ano passado. De acordo com o produtor cultural André Feiges, organizador colaborativo do evento, o aumento de participantes se deve principalmente ao fato da marcha ter sido legalizada através do direito à liberdade de expressão. ‘‘Antes, sofremos vários processos que suspendiam a manifestação porque a Justiça considerava ‘apologia às drogas’’’, conta.
A motivação do movimento, porém, tem natureza diferente. Segundo Feiges, os manifestantes querem mudanças na legislação atual para que as pessoas tenham direito de portar a substância para uso e possam fazer o cultivo da planta que a origina. ‘‘Posteriormente, vamos lutar pela regularização estatal e dos mercados’’, antecipa.
A bandeira da Marcha da Maconha se baseia em argumentos como a ineficiência da atual política de drogas, que criminaliza usuários e, de acordo com o ativista, acaba expondo-os à violência associada ao tráfico. Na passeata pelas ruas de Curitiba, eles tiveram o objetivo de levar essas informações ao público que, para Feiges, não tem acesso às mesmas. ‘‘É claro que existe um choque inicial das pessoas, mas muita gente se sentiu confortável com a marcha.’’
Também neste caso, a internet foi fundamental para garantir o sucesso do evento. ‘‘As redes sociais exercem um papel mobilizador muito grande. Fizemos peças publicitárias divertidas que foram muito compartilhadas’’, revela. Ele considera válida, inclusive, a ação de pessoas que confirmaram presença no evento, mas não compareceram. ‘‘Encaramos como um apoio digital daqueles que não tinham condições de ir.’’

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