Milhares de catadores de papel circulam diariamente pelas ruas de Curitiba em busca de material reciclável. Eles são responsáveis por cerca de 84% da coleta total de papel, plástico, papelão, vidro e latas de alumínio. Por dia, cada carrinheiro (como também são chamados) retira em média 125 quilos de lixo da cidade. Mas a maioria destes trabalhadores sofre com a exploração de mão-de-obra por parte dos chamados 'sucateiros', que mantêm pequenos depósitos e compram todo o produto coletado.
O sucateiro (ou agenciador) empresta o carrinho e dá uma moradia ao catador de papel. Na moradia, o carrinheiro não precisa pagar água ou luz. Tudo, exceto alimentação, é mantido pelo agenciador. ''É um trabalho semi-escravo. O catador dorme e não paga o aluguel do local, nem do carrinho que usa. No entanto, ele fica a mercê do agenciador'', explica o sindicalista Sérgio Athayde, responsável pela Agência de Desenvolvimento Solidário da Central Única dos Trabalhadores (CUT-PR).
Cada depósito de um agenciador tem entre 10 e 15 famílias de catadores de papel morando. Essas famílias dividem tudo, mas vivem separadas em ambientes de duas peças fechadas com paredes de madeira. ''Por causa da crise, essas famílias acabam dividindo tudo dentro da casa. Desde comida até chuveiro frio'', destaca o sindicalista Roberto Von Der Osten, presidente da CUT.
Muitas vezes, o catador acaba acumulando dívidas com o agenciador. Cada dia de trabalho faltado por motivos adversos (que não seja saúde), o carrinheiro é obrigado a pagar uma taxa de R$ 10,00. As denúncias não aparecem na imprensa porque os catadores necessitam do sustento e da ajuda do agenciador. ''As denúncias não aparecem por medo de represálias. O catador é desprotegido das leis trabalhistas e previdenciárias. Ele não tem nada. E por isto se submete ao trabalho escravo'', afirma Athayde.
Os dados da CUT revelam que a maior parte dos carrinheiros tem mais de 35 anos e mora em favelas de Curitiba. O motivo seria o crescente desemprego nesta faixa etária. De acordo com as informações prestadas pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), quase 23% dos desempregados estão na faixa entre 30 e 39 anos e 37,5% deles são chefes de família. ''Não sobra muita alternativa para essas pessoas. Elas acabam procurando uma renda alternativa. Essa renda, muitas vezes, é fruto da coleta do lixo'', analisa.
A denúncia, considerada grave pela CUT, foi levada ao Ministério Público do Trabalho na tarde da última sexta-feira. A grande dificuldade está em conseguir trabalhadores que queiram denunciar formalmente o trabalho escravo. ''Pode demorar, mas vamos documentar a denúncia e convencer alguns carrinheiros a falar. Sabemos que a situação é complicada. Estaremos mexendo com bandidos'', alerta Von Der Osten.

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