Cultura da prova de amor agrava problema
O Instituto Eurobase, que desenvolve projetos para a inclusão social de crianças, adolescentes e mulheres no Jardim União da Vitória (zona sul de Londrina), começou a trabalhar os temas sexualidade e gravidez na adolescência há cerca de dois meses, na tentativa de diminuir a incidência de adolescentes grávidas no bairro. O projeto, denominado Construindo Caminhos, é desenvolvido em parceria com o Instituto Federal do Paraná e tem sido uma grata surpresa aos profissionais responsáveis. "O assunto despertou tanto interesse que, em vez de cair o número de participantes com o tempo, como normalmente acontece, aumentou", comemora a psicóloga da instituição, Sílvia Gomes de Araújo.
A realidade vista de perto chamou a atenção da equipe do instituto, presente no bairro há mais de uma década. "Sabíamos que a gravidez entre adolescentes é algo corriqueiro na região, por isso não chegamos a ficar surpresos, mas achamos incrível como todos conhecem um caso. A gente percebe que estes meninos e meninas não têm maturidade para pensar nas consequências, no que vai acontecer depois", afirma a psicóloga.
De acordo com o assistente social do Eurobase, Adenilton Rosa de Oliveira, existem questões culturais que continuam arraigadas entre os adolescentes e que dificultam um comportamento mais responsável. Como exemplo, ele cita a prática ainda comum de dispensar o uso de preservativo como forma de dar "uma prova de amor" ao parceiro. "Há também os casos de garotas que se relacionam com jovens em situação prisional. Engravidar, para elas, é uma forma de manter o vínculo com o companheiro. O mesmo acontece da parte deles, que assim têm garantido um vínculo com o exterior."
Oliveira observa ainda que há um forte viés psicológico envolvido na questão. "Muitas garotas querem fugir da realidade difícil em que vivem e têm o desejo de construir sua própria história, na esperança de ter algo melhor, e veem na gravidez um caminho para isso. São adolescentes que têm o desejo de ser mães", analisa o assistente social. Somado a isso, Oliveira vê outros fatores que dificultam a mudança de comportamento: a linguagem utilizada nas campanhas de prevenção, que muitas vezes não condiz com a realidade da população mais suscetível, e a postura exigida dos jovens para ter acesso aos métodos contraceptivos para isso, eles têm que admitir, perante a família e a sociedade, que têm vida sexual ativa.
O projeto desenvolvido no União da Vitória trabalha também a conscientização dos meninos. "Eles têm que ser envolvidos porque, muitas vezes, são eles que induzem à gravidez", observa o assistente social.
Entre as garotas do Jardim União da Vitória que sempre sonharam em ser mães está Jessica de Almeida, hoje com 18 anos, mãe de Walace, de um ano e sete meses. Ao engravidar, aos 16, ela reproduziu a experiência vivida por sua irmã gêmea, que foi mãe aos 14 anos. A jovem também viu sua vida mudar: após o nascimento do bebê, parou de estudar e trabalhar, casou-se com o companheiro e foi morar na casa dos pais dele. "Não consegui creche e não tenho com quem deixar meu filho", justifica. Mas não se arrepende. "Sempre quis ter um filho", confessa, revelando que o então namorado queria que ela tivesse engravidado ainda mais cedo.
Jessica revela que conhece várias meninas, tão ou mais novas que ela, que já têm filhos. "Aqui é muito comum", diz. Sem condições de trabalhar ou de voltar a frequentar o ensino médio, a jovem mãe hoje frequenta uma oficina de artesanato oferecida pelo Eurobase a mulheres do bairro. Ela conta que sua irmã gêmea, que conheceu a maternidade ainda mais precocemente, separou-se do companheiro logo depois do nascimento do filho porque era vítima de violência doméstica. (S.L.)





