Na divisa do Oeste com o Sudoeste, não se fala em outra coisa: a construção interrompida da Usina Hidrelétrica Baixo Iguaçu, obra do Consórcio Geração Céu Azul que faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em junho, uma cheia sem precedentes, seguida – semanas depois - de uma ordem judicial motivada por falta de garantias em relação aos possíveis danos ambientais, fez parar os homens e as máquinas. Um balde de água fria em um ano que prometia ser aquecido como nenhum outro, o primeiro de um ciclo calculado em três anos, o tempo estimado para a obra.
Como num devastador efeito dominó, a suspensão foi fazendo estragos na atividade econômica de uma série de municípios, com níveis mais dramáticos em Capanema e um pouco menos em Capitão Leonidas Marques, cidades visitadas pela reportagem da FOLHA. São 104 dias de paralisação e o contingente de desempregados não para de crescer. Estima-se que apenas 400 dos 1,8 mil trabalhadores continuam vinculados à empreiteira responsável pela obra. Até o final do mês, o consórcio informa que o número de ocupados será reduzido para 250, o mínimo para a manutenção do canteiro.
O desfalque no mercado de trabalho afetou o comércio e os serviços, o que também resultou no desaparecimento de mais empregos formais ao longo do período. Com a perda do dinamismo econômico, as prefeituras sofrem com a queda de receita sem que ainda tenham perdido a demanda extra criada pelos moradores que chegaram às cidades em busca de oportunidades. A esperança de dias mais prósperos deu lugar a angústia da incerteza.
Nas duas cidades, há um misto de apreensão, indignação e perplexidade. A elite local se sente de mãos atadas, sem poderes de influenciar no campo político uma desejada reviravolta nos tribunais. A decisão da 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), sediado em Porto Alegre, é classificada por muita gente ouvida pela reportagem como "inconsequente". Outros tantos afirmam que a obra nem deveria ter começado com as pendências em relação aos licenciamentos ambientais. Difícil mesmo é encontrar alguém contrário à obra.
Ecossistema
Em geral, os moradores das cidades vizinhas à mata exuberante do parque nacional consideram o ecossistema robusto o suficiente para suportar qualquer intervenção ao seu redor, mesmo esta que impressiona pela proximidade – a usina fica a 500 metros dos limites da unidade de conservação – e pela ousadia, que desafia o movimento ambientalista e o chamado trade turístico de Foz do Iguaçu, temeroso com a possível perda do título concedido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ao parque das Cataratas, de Sítio do Patrimônio Mundial Natural.
Por outro lado, ONGs ambientais de Curitiba, a Liga Ambiental e o Centro de Estudos, Defesa e Educação Ambiental (Cedea) lideram a resistência contra a construção ou pelo menos contra o modo que o canteiro foi instalado.
Elas alegam que o parque é uma unidade de conservação que corre o risco de ser afetado pelo empreendimento e que a licença ambiental deve conter manifestação expressa do ICMBio, que é o órgão administrador do parque.
A suspensão da licença de instalação pelo tribunal federal foi a vitória mais recente de uma longa batalha dos ambientalistas, que começou desde que a central elétrica foi projetada. Em 2010, por exemplo, a licença concedida pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) foi cassada pelo mesmo TRF. Dois anos depois, a Neoenergia, concessionária que lidera o pool de investidores, cassou a liminar.
Na decisão de junho, o relator do processo, o desembargador federal Cândido Alfredo Silva Leal Júnior, escreveu no voto: "Por infringência à regra do art. 36- § 3º da Lei 9.985/ 2000, é ilegal a expedição de licença de instalação do empreendimento impactante pelo órgão ambiental estadual competente, sem a prévia manifestação favorável do órgão gestor da unidade de conservação atingida". E prosseguiu: "A anuência do órgão gestor tem de ser obtida em relação ao empreendimento como um todo, de forma que se tenha certeza quanto à sua viabilidade ambiental, dada sua influência sobre a área especialmente protegida."

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