O ano raiou prometendo novos negócios no Sudoeste. Graças à força do curso d´água mais importante do Estado, o rio Iguaçu, um gigante da geração de energia no Brasil, os moradores da região davam de ombros ao risco de estagnação econômica em 2014. A correnteza tinha direção certa: mais renda, mais emprego, mais chances de realizar sonhos. Tudo, porém, foi represado no fatídico 7 de julho, dia em que o oficial de justiça comunicou à empreiteira que a Baixo Iguaçu deveria ser "congelada".
O rio continuou serpenteando o estado por quase mil quilômetros, continuou desabando com beleza única em 175 porções de água de um degrau de 80 metros, continuou correndo, manso, até se misturar ao principal rio da bacia, encorpando eternamente de vida o Paranazão na Tríplice Fronteira. A beleza intacta, porém, não foi capaz de mascarar a realidade dura que a decisão judicial trouxe a Capanema e a Capitão Leônidas Marques. "Quando a obra começou, houve um grande entusiasmo. Hoje todos nós estamos frustrados", afirma a prefeita de Capanema, Lindamir Denardin (PSDB).
A previsão da empreiteira era que neste angustiado outubro o Sudoeste estaria aproveitando a construção na sua plenitude. Seriam 3,5 mil operários no canteiro. Hoje são poucas centenas, o mínimo para manter o que foi erguido após 30% de cronograma cumprido. "O impacto é catastrófico", classifica a prefeita, que calcula que a obra já fazia circular no comércio da cidade R$ 7 milhões por mês e que só a obra geraria receitas tributárias da ordem de R$ 12 milhões. O município tem 19.229 moradores.
Luiz Vicente Hartmann, bancário da Caixa Econômica Federal e presidente da Associação Comercial e Empresarial de Capanema (Apec), explica o que aconteceu na cidade desde o ano passado. "Chegamos a experimentar um pouco de uma retomada econômica, com novos investimentos, com a valorização imobiliária. O comércio se preparou para uma demanda maior. Lojas foram ampliadas. Novos serviços começaram a ser oferecidos por investidores de fora. Era tudo muito promissor para uma cidade que perdeu 44% da população desde 1980 por falta de dinamismo econômico", explica.
O líder empresarial revela outro elemento que causa apreensão nos comerciantes, este de caráter incalculável. "A suspensão da obra trouxe um clima de incerteza muito grande. Mesmo a obra voltando, o investidor vai ficar inseguro. Será que não vai haver outra liminar? Será que arrisco nos negócios? É uma situação complicada", avalia Hartmann.
Até mesmo algumas ações do poder público foram afetadas. A Prefeitura conseguiu empréstimos junto ao governo do Estado para ampliar unidades de saúde e escolas. Uma parceria com a concessionária Geração Céu Azul iria levantar recursos para a melhoria das estradas rurais e para a ampliação das vagas na creche. Também com a ajuda da Neoenergia, a prefeitura comprou terreno e iria erguer a estrutura de uma companhia da Polícia Militar. Tudo foi interrompido com a decisão da Justiça Federal.
Até mesmo outras receitas que poderiam dar lastro a empréstimos dos governos municipais se tornaram apenas fantasia desde julho. Com o alagamento de áreas agricultáveis, os cinco municípios atingidos (veja quadro nesta edição) receberiam R$ 7 milhões a título de indenização. Estes royalties parecem cada vez mais distantes, já que pouca gente acredita que o cronograma original seja cumprido e que a Baixo Iguaçu comece a operar em 2016. O mais provável é que apenas quem exercer o cargo no próximo mandato é que vai desfrutar do dinheiro.

13º ameaçado
Em Capitão Leônidas Marques, o impasse legal ameaça gravemente as contas municipais. "O município deixou de arrecadar R$ 250 mil por mês somente com Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza. Ou seja, se o problema persistir até o final do ano, o montante não-arrecadado pode chegar a R$ 1,5 milhão. É um prejuízo enorme", conta o prefeito Ivar Barea (PDT). O impacto é tão grande que ameaça o pagamento do 13º salário do funcionalismo. "Este povo não tem mais emprego, o que acaba gerando uma dependência da assistência social. Também gera demanda na saúde porque antes o pessoal da usina usava o plano de saúde. Na educação, na segurança pública... E este peso quem carrega nos ombros é o município", desabafa.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Capitão Leônidas Marques (Acicap), o supermercadista Amarildo Rigo, diz que está deixando de faturar cerca de R$ 15 mil por mês e que muitos outros membros da entidade estão reclamando das "vacas magras". Assim como em Capanema, o fantasma da inadimplência também ronda o comércio do município, de 15.659 habitantes.

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