CRISE MIGRATÓRIA - Trocamos o asfalto pela terra roxa'
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sábado, 12 de setembro de 2015
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
As notícias sobre a guerra na Síria e a situação enfrentada pelas pessoas que saem às pressas do país para proteger a própria vida causam comoção no pensionista Bernardo Marx, de 89 anos, morador de Londrina. Há oito décadas, ele viveu a mesma situação quando, junto com os pais e a irmã, teve que fugir da Alemanha por causa das perseguições do regime nazista. O pai era judeu e até 1933 oferecia à família uma vida confortável graças ao comércio de carnes na desenvolvida Colônia. Com a ascensão de Hitler, o estabelecimento comercial foi marcado com o "X" e o "J" que indicavam a presença de judeus e nunca mais atendeu clientes.
A mãe não tinha ascendência judia, mas professava a religião católica, que também era passível de perseguição. Marx lembra com detalhes das vezes em que viu celebrações católicas serem interrompidas por agentes da Gestapo, a polícia nazista. "Colocavam os padres em latões de lixo e levavam embora. Eles chegavam mortos ao destino", relata.
Na escola, ainda criança, ele foi vítima de muita hostilidade. "Não éramos considerados cidadãos alemães, me sentia posto de lado. Apesar da maior parte dos alemães não serem a favor do regime, eles eram obrigados a nos hostilizar", recorda.
Um ano depois do início das perseguições, sem emprego e proibido de entrar no local onde trabalhava, o pai de Marx decidiu levar a família para a Holanda e para a Bélgica. "Nesses países, eles não apoiavam o regime nazista e nos hostilizaram por sermos alemães. Eles não entendiam que fomos perseguidos", conta.
Foi então que um padre que atuava na Companhia de Terras Norte do Paraná, que colonizou a região de Londrina, ofereceu a possibilidade da família imigrar para Rolândia, onde a colônia alemã começava a se estabelecer. "Por intermédio do padre, conseguimos licença do governo para nos mudarmos", diz.
Ao chegar ao Brasil, a família decidiu ficar em Londrina, onde adquiriu uma chácara e a primeira fábrica de linguiça da cidade. Os primeiros tempos foram penosos. "Trocamos o asfalto pela terra roxa", compara.
A eclosão da Segunda Guerra Mundial, porém, tirou a sonhada tranquilidade da família. "Os alemães, brasileiros, italianos e japoneses nos perseguiam. Diziam que meu pai seria o primeiro a ser enforcado", lembra, destacando que foi só depois do fim da guerra que os brasileiros finalmente se tornaram irmãos.
Já adulto, Marx se dedicou por muito tempo à vida religiosa, tendo inclusive morado em um mosteiro no interior de São Paulo onde administrava a propriedade rural. Casou-se aos 32 anos e voltou a Londrina, onde passou a tocar uma leiteria e onde nasceram os filhos Rodolfo, Maria Cecília e Geraldo.
Hoje, Marx agradece pelos pais terem tomado a decisão de fugir da Alemanha. "Podia ter morrido em um campo de concentração", acredita ele, que se sente mesmo um brasileiro. Ao pensar na guerra na Síria, ele acha que a situação dos imigrantes atuais é ainda pior. "Quando viemos, tínhamos a garantia de trabalhar na lavoura. Os sírios não têm promessa de nada, não sabem como será o futuro", analisa.
Por isso, ele pede ao mundo que "abram o coração para quem sofre" e defende que a Alemanha acolha o maior número de refugiados possível. "O país tem uma dívida a pagar. Querem apagar a mancha do nazismo, mas acho que não será possível."
A trajetória de Bernardo Marx está registrada no livro "A História da Minha Vida", editado por amigos e familiares e que foi lançado no último dia 5 de agosto.


