À frente da mais antiga delegacia de investigação de crimes cibernéticos no Brasil, o delegado Demetrius Gonzaga de Oliveira, responsável pelo Núcleo de Combate a Cibercrimes (Nuciber) da Polícia Civil do Paraná, está acostumado a lidar com todo tipo de denúncias envolvendo crimes virtuais. Não deixa, porém, de demonstrar perplexidade diante do aumento de casos de fotos que foram produzidas para sexting que acabam vazando em toda a internet.
Segundo ele, a maioria das vítimas são meninas que mandam imagens para namorados ou garotos por quem têm interesse. O problema é que, uma vez compartilhada, a foto é passada de celular para celular, através de Whatsapp ou bluetoth, e acaba expondo as adolescentes a situações vexatórias. Nas investigações que já conduziu, Oliveira observou que muitas garotas produzem as fotos deliberadamente, sem que ninguém tenha pressionado, e divulgam para mais de um garoto ou até mesmo em chats de conteúdo erótico, onde chegam a mentir a própria idade. "Adolescentes agem por curiosidade, revolta, demonstração de ousadia ou até mesmo solidão. O problema é que existem na internet muitos criminosos superacostumados a conversarem com com este pessoal", afirma, alertando que as chances das fotos caírem em redes de pedofilia é grande.
Em Londrina, o Nuciber conduz investigação sobre a página "Trankeiras de Londrina", retirada do ar e que divulgava fotos sensuais de adolescentes. De acordo com investigador de polícia Sérgio Augusto Ricardo, do Nuciber, que esteve na cidade semana passada tomando depoimentos sobre o caso, trata-se de uma situação clássica de site que se apropria de fotos disponíveis na internet sem que as pessoas fotografadas saibam que as imagens foram apropriadas. Os administradores, cuja identidade está sendo investigada, alardeavam que a página "reúne em um só lugar as atividades sexuais de Londrina".
De acordo com o investigador a maioria das fotos era de adolescentes, tanto do sexo feminino como masculino. Uma das meninas expostas inclusive estuda em uma escola da cidade, o que foi comprovado comparando fotos do próprio perfil da garota no Facebook, evidenciando tratar-se de adolescente. Para chegar ao autor, o Nuciber aguarda autorização judicial para quebrar o sigilo e, assim, identificar o IP da máquina que gerava as postagens.
O policial reforça que este é o mesmo "modus operandi" de outros delitos do tipo, que envolvem divulgação de fotos tiradas de forma privada em sites de pornografia. "As meninas fazem as fotos sem imaginar que pode ter consequências", diz.
O delegado Oliveira, do Nuciber, aponta que o aumento no volume de casos está diretamente ligado ao uso indiscriminado das tecnologias sem qualquer controle por parte dos pais. "Estudos na área de Direito abordam, inclusive, a possibilidade de responsabilizar os pais em caso de divulgação de fotos de sexting", alerta. Ele atenta que muitas das fotos – inclusive de sexo explícito – são feitas por equipamentos que foram comprados e registrados no nome dos pais, tendo como cenário a própria casa das famílias. "É um total descontrole", acusa, lembrando que o diálogo franco e direto sobre os riscos desta prática ainda é o melhor caminho para preveni-la. "Os pais devem conhecer os filhos para orientá-los", afirma.
Este é o mesmo discurso da psicóloga Juliana Cunha, da SaferNet, que orienta os pais a criarem laços de confiança com os filhos, abrindo espaço para eles relatarem o problema sem ameaça de castigos e outras punições. "Falar sobre sexualidade com os adolescentes não estimula a prática do sexo, muito pelo contrário", defende. Aos adultos, cabe orientar os adolescentes, também, sobre o caráter público da internet, incluindo redes sociais como whatsapp, operadas por telefones celulares.

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