CRIME E CASTIGO - Psicopatas também são vítimas
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de dezembro de 2014
Diego Prazeres<br> Reportagem Local 
Ao mesmo tempo em que chocam a sociedade pela frieza e crueldade com que executam seus crimes, os assassinos seriais também despertam nela uma inegável curiosidade. O sucesso das séries televisivas e dos filmes do gênero comprovam que por mais que repudiemos, queremos saber o que está por trás, ou por dentro, da mente desses indivíduos cujos traços de personalidade a psicologia forense associa aos psicopatas. São pessoas desprovidas de afeto e empatia, que não carregam o mínimo de remorso ao provocar o sofrimento humano. Ao contrário. Sentem até prazer.
Neste ano, dois casos no Brasil repercutiram muito na mídia. Primeiro, o do goiano Tiago Henrique Gomes da Rocha, preso acusado de matar 39 pessoas em seu Estado. E mais recentemente, o do fluminense Sailson José das Graças, que disse à polícia ter assassinado 43 vítimas em nove anos na Baixada Fluminense.
A psicóloga e professora londrinense Paula Inez da Cunha Gomide, mestre e doutora em Psicologia Experimental, coordena na Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, o único curso de Mestrado em Psicologia Forense no Brasil. É uma área da Psicologia que estuda, entre outras coisas, os comportamentos antissociais.
Sem medo de polemizar, ela vai direto ao ponto: a psicopatia não é uma doença mental, tem raízes na primeira infância geralmente fruto da negligência dos pais. Mas a especialista defende que os psicopatas devem ficar isolados nas unidades penais porque são perigosos e altamente persuasivos, e avalia que o poder público falha em não diagnosticar corretamente o comportamento nocivo desses indivíduos. Confira a entrevista.
O que explica um ser humano ter prazer em matar outros seres humanos?
Há um conceito da psicologia forense que chama-se psicopatia. Pessoas com esse tipo de personalidade psicopática têm um conjunto padrão de comportamento que inclui a falta de culpa, remorso, afeto, sensibilidade. Junto com isso, eles têm uma hiper necessidade de excitabilidade, ou seja, precisam fazer coisas muito variadas, excitáveis, como um crime, por exemplo. A falta de remorso, de arrependimento, de culpa, ausência de empatia completa, de nunca se por em lugar do outro, insensibilidade, e mais a necessidade dessa excitabilidade, cria essa configuração perfeita para o comportamento criminoso.
Por que isso ocorre?
A neuropsicologia forense tem estudado muito o comportamento do cérebro em função dos maus tratos. Quando o indivíduo recebe os maus tratos, principalmente na primeira infância (0 a 7 anos), seja espancamento, negligência severa a criança fica no berço e ninguém fala com ela , crianças que são amarradas em pé de cama, que são deixadas chorando no escuro, são queimadas, passam fome, que não têm presença de pai e de mãe, pais alcoolistas, drogaditos, ou que são presos, o cérebro dessa criança vai se alterando com o tempo. São feitos exames neurológicos, principalmente na formação do cérebro, que mostram por exemplo a presença da amídala, que é uma área importante. Num ser humano normal, na parte do cérebro que responde à afetividade, se você mostra a imagem de um bebê a amídala reage, fica cintilante, vermelha, bem luminosa. Num psicopata, ela é cinza, não responde. Isso ocorre gradualmente, em função desses maus tratos. A gente poderia interpretar como uma proteção do próprio organismo à questão do estar sofrendo, então ele deixa de sentir, e o outro passa a ser nada, por isso ele maltrata o outro sem remorso.
É uma patologia?
É..., só que não é uma doença mental. É diferente do psicótico, do esquizofrênico, que não sabem a diferença entre o certo e o errado. O psicopata sabe que o que ele está fazendo é errado, mas ele faz assim mesmo.
E como tratar a psicopatia? Ela pode ser encarada como um problema de saúde pública?
Primeiro, se fizermos uma análise do índice de psicopatas que há nos presídios, é bastante alto, algo em torno de 25% no Brasil. E não há uma identificação desses psicopatas nos presídios. Se isso fosse possível, poderíamos inclusive ter uma medida bastante útil, porque são eles que comandam o crime organizado, até porque têm uma outra característica, que é a inteligência superior. São pessoas que têm um desenvolvimento cognitivo verbal muito alto, por isso eles conseguem ter ações de comando, são chefes de quadrilha. Se isolarmos os psicopatas dos demais presos, conseguimos um tratamento adequado para os demais presos, esses conseguem a ressocialização. No entanto, se estão em convívio com os psicopatas, não se submetem à ressocialização porque têm um chefe que está sempre mandando que eles façam o contrário. Há uma experiência na Europa, não me lembro se na Dinamarca ou Holanda, em que isolaram os psicopatas, colocaram todos juntos num presídio só, porque aí um sabe reconhecer o outro, não se comandam mais, não têm mais aquela força. O país teve uma redução de 75% da criminalidade só com essa medida. A gente não faz isso no Brasil e os psicopatas acabam recebendo indulto de Natal, de dia dos pais, porque como eles têm comportamento sedutor altamente instalado, manipulam os agentes penitenciários, equipes técnicas, e isso tudo faz com que eles tenham uma boa avaliação para sair. Saem e voltam para o crime porque não tiveram nenhum tratamento.
Tem como oferecer um tratamento preventivo?
Tem se a psicopatia for identificada logo na primeira infância, até 12, 13 anos. Estamos desenvolvendo no Mestrado em Psicologia Forense um instrumento para avaliar indicativos de psicopatia nessa faixa etária. Identificando, o paciente com essa idade ainda está com o desenvolvimento sendo formado e teria possibilidade do tratamento ser eficaz. O tratamento é só psicológico. Medicação não tem nenhum efeito para o psicopata.
Como identificar o comportamento psicopata em adolescentes, já que nessa faixa etária os questionamentos aos ditos padrões normais de comportamento são mais comuns?
O comportamento do adolescente padrão pode ser irresponsável, mas ele não tem características do crime do psicopata. A primeira coisa que identificamos são esses indicativos do remorso, da culpa, do arrependimento, da empatia. E mais: o histórico do psicopata vem desde a infância, ele faz coisas perversas, é um mentiroso patológico.
E as raízes disso estão na primeira infância?
Sim.
Como a sociedade pode ajudar nesse processo, se é que ela pode?
A sociedade tem que se afastar, fugir, porque eles são muito perigosos. Tem muita gente que foi casada com psicopata, homem ou mulher, que foi enganada terrivelmente e que não percebeu até que levou um grande tombo. Agora, quando são pais de crianças que estão com esses indicativos, esses sim devem procurar ajuda de especialistas, porque há chances dessa criança ou adolescente ser identificado e tratado.
O tratamento consegue reverter um comportamento psicopata?
Como o cérebro de um adolescente ainda não está totalmente formado, tem chances de contornar de várias formas, ensinar novos comportamentos e até ensinar comportamentos não infratores que causem excitabilidade. Mostrar que pode ter outras fontes de excitabilidade que não o crime. E aí você teria essa possibilidade, desenvolver a empatia, que é uma das principais formas de prevenir o crime, porque o crime ocorre em pessoas que não tem empatia.
A senhora mencionou que os psicopatas são envolventes. Recentemente, causou grande repercussão a notícia de que a Suzanne Van Richtofen (presa pela coautoria do assassinato dos próprios pais em 2002) despertou paixões no presídio...
Mas ela não é uma psicopata. Ela é uma parricida, é outra coisa. O parricida mata o pai ou a mãe ou ambos, mais ninguém. Ele não faz mal a mais ninguém, não é um indivíduo que comete outros crimes. A história de parricidas é de indivíduos que são abusados pelos pais que eles matam. Abusados sexualmente, psicologicamente, fisicamente. E quando chega numa determinada idade, é a gota dágua. A motivação é completamente outra em relação à do psicopata. A mídia diz que é crime hediondo. É porque você não sabe o que aquela mãe ou aquele pai fez com o filho. O menino de 17 anos que eu atendi que matou a mãe com 60 facadas, essa mãe torturava esse filho e abusava sexualmente dele desde que nasceu.
Então é possível afirmar que tanto os psicopatas quanto os parricidas são ou já foram de alguma forma vítimas? Ou é muito forte usar esse termo?
Foram vítimas, com certeza. Diferente do psicopata, o parricida não vai cometer o crime de novo e ele também não é um doente mental, ele sofreu abusos sérios. O psicopata não, ele teve um desajuste tamanho que não será corrigido com uma terapia. E esse desajuste foi causado na infância.
Os pais também têm ou tiveram responsabilidade no comportamento do psicopata?
Claro que tem, a base dessa panorama todo são esses pais. Então vamos culpar os pais? Não é questão de culpá-los. É responsabilidade deles, porque alguma coisa que eles fizeram ou não fizeram é que desencadeou esse tipo de comportamento.


