Corruptos assustam mais que fantasmas
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sábado, 03 de março de 2001
Walter Ogama De Londrina 
Muito bem vivas, as assombrações dos dias de hoje já não fazem parte das histórias contadas em rodas de amigos nos fins das tardes de Quaresma, quando o prêmio por um dia de trabalho era o bate-papo que entrava pela noite. Elas não fazem o frio correr pela espinha e não arrepiam marmanjos. Mas provocam revolta e alimentam indignação pela facilidade que têm de sumir com o dinheiro alheio, enquanto aumentam o seu patrimônio.
São assombrações que usam sigilo para agir, embora transitem soberbos por lugares onde a maioria dos brasileiros jamais tenha imaginado pisar. Frequentam palácios de governo, prefeituras e legislativos, onde não assombram e são recebidas como autoridades. Quando seus efeitos negativos começam a ser sentidos, passam a ser assuntos de conversas de ponto de ônibus, filas de banco e mesas de bar. Também ganham destaques nos jornais e, em raríssimos casos, trocam as mansões onde moram por um lugar onde, apostavam, jamais iriam estar: as prisões.
O ex-juiz do trabalho Nicolau dos Santos Neto é um exemplo das assombrações dos dias de hoje. Nicolau assombra pela quantidade de acusações que pesam sobre ele: sonegação fiscal, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no desvio de R$ 169 milhões das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo. O ex-juiz está preso e tem pelo menos uma particularidade com as assombrações do passado: a cada novo depoimento que vai prestar, Nicolau faz gelar as espinhas de pessoas que andaram com ele pelo caminho do desvio.
Nicolau, infelizmente, não é um exemplo raro. Em Londrina, o caso AMA-Comurb, que inclui nas malhas da Justiça o ex-prefeito Antonio Belinati e envolve ainda deputados e ex-secretários municipais, entre outras figuras do meio político, já teve apurado o desvio de cerca de R$ 16 milhões dos cofres públicos em apenas parte das investigações feitas pelo Ministério Público.
Em Maringá, o esquema de corrupção comandado pelo ex-secretário municipal da Fazenda, Luis Antônio Paolicchi, pode ter rendido aos envolvidos cerca de R$ 100 milhões. Como em Londrina, a sombra provocada por esse fantasma se agiganta e já, cobre, inclusive, o governador Jaime Lerner (PFL), acusado pelo ex-secretário de ter se valido de dinheiro do esquema para financiar campanha política. Para o governador, o depoimento de Paolicchi é uma tentativa inócua de envolvê-lo no esquema, conforme publicado sexta-feira na Folha.
As assombrações modernas também agem nas ruas, atormentando os cidadãos a qualquer hora do dia. Mas, ao contrário dos fantasmas do passado, que só assustava, elas subtraem salários de gente que ganha pouco, aproveitando descuidos ou ousando encostar uma faca ou um revólver nos assaltos.
Também costumam apavorar populações inteiras aparecendo como grandes traficantes. Usam inclusive tecnologia para deflagrar, como no mês passado, uma rebelião de criminosos em 29 penitenciárias do Estado de São Paulo, organizada com o uso de telefones celulares por um comando denominado PCC (Primeiro Comando da Capital).
Pequenas assombrações modernas também causam pavor. Janete (um nome fictício), uma londrinense que mora nas proximidades do Cemitério São Pedro, no centro de Londrina, é uma das dezenas de testemunhas dos atos que esses fantasminhas promovem no local onde repousam os mortos. Produtos de furtos costumam ser escondidos em alguns túmulos do cemitério. À noite, os ladrões pulam o baixo muro do local para fazer a retirada de seus lucros.
É no cemitério onde, segundo Janete, também ocorrem negócios envolvendo drogas. Escuro e com vigilância precária, à noite o São Pedro abriga assombrações perigosas, de carne e osso. A superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf), Cláudia Prochet, que revela não acreditar nas assombrações do passado, afirma: O que me causa assombro são os que estão vivos e aprontam contra a moralidade, a probilidade e a dignidade.
Cláudia recebeu na sexta-feira orçamentos de empresas de segurança para melhorar a vigilância no Cemitério São Pedro. Mas, devido a Lei de Responsabilidade Fiscal, não poderá contratar a vencedora da concorrência. É que a Acesf já está com 69% do orçamento comprometido com a folha de pagamento e, mesmo terceirizada, a empresa de segurança entraria nessa conta. A superintendente anunciou que fará nova tomada de preços, para a instalação de um sistema de alarme monitorado. Nos planos dela também constam a melhoria dos portões do cemitério e o aumento da altura dos muros.


