Senador Delcídio do Amaral preso pela operação Lava Jato, processo de cassação contra o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e tramitação no Congresso do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os recentes acontecimentos envolvendo a política brasileira parecem estar refletindo na percepção das pessoas sobre as dificuldades do país. Pesquisa realizada pelo DataFolha indica que, pela primeira vez, a população considera a corrupção o principal problema do Brasil. Diante da ampla divulgação de notícias sobre o tema, dos 3.541 entrevistados em 185 municípios brasileiros, 34% apontaram a corrupção como maior motivo de preocupação.
Nas últimas três consultas sobre o principal problema do país junto à população, realizadas em fevereiro, abril e junho deste ano, a corrupção já vinha ganhando destaque, porém ainda dividia o posto com a área da saúde. Atualmente, conforme levantamento do DataFolha, a saúde ocupa a segunda posição, citada espontaneamente por 16% dos entrevistados e, em seguida, aparecem desemprego (10%), educação (8%), violência e segurança pública (8%), economia (5%), governantes e política (3%), inflação (3%), e fome e miséria (2%), entre outros menos citados.
"Essa é uma agenda temática colocada pela grande mídia ao longo do ano. Como o assunto tem sido focado de maneira exaustiva, influencia segmentos da opinião pública", explica Ricardo Costa de Oliveira, sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Paraná (UFPR) sobre o resultado da pesquisa.
Ele reforça que a corrupção não é uma novidade histórica no Brasil. "O fato novo é o foco da grande mídia no assunto", diz, destacando que considera a preocupação positiva, desde que não seja desprezado o fato do Brasil ter problemas piores, como desigualdade social, concentração de renda, baixos indicadores sociais e falta de acesso à saúde.
O aumento da preocupação do brasileiro sobre o tema, porém, não deve ter consequências práticas. "Muitos movimentos tomaram as ruas no início do ano e foram diminuindo com o passar do tempo. Estamos em dezembro e não houve mais nenhum grande evento, nenhum grande impacto deste tipo de campanha. A opinião pública também percebe os interesses e objetivos destes movimentos e tem noção realista da corrupção, que é antiga e vem de muitos governos anteriores", avalia. E lembra que muitos dos acusados de corrupção estão na política há muitas décadas, atravessando governos e partidos.
"O eleitorado identifica política com muito dinheiro, o que é uma análise correta. Sabem que políticos e empresas estão operando há muitas décadas da mesma maneira e só agora alguns foram apontados. A população mais crítica reconhece a seletividade da Justiça, que investiga alguns, mas não todos, e com isso perde credibilidade", acredita.
Por isso, mais que demonstrar preocupação sobre o tema, Oliveira defende que o caminho para vencer a corrupção é o aperfeiçoamento da democracia por meio do debate crítico, da investigação, dos movimentos e das lutas sociais pela cidadania, como ocorre nas sociedades desenvolvidas. Quanto maior a educação, maior a consciência", defende.

PEQUENAS MALANDRAGENS

Rodrigo Augusto Prando, professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, também explica o resultado da pesquisa pelos noticiários insistentes sobre o assunto. Mas acrescenta que, na internet, seja em redes sociais ou blogs, ainda há resquícios da campanha presidencial de 2014 e consequentemente a confrontação das pessoas que votaram contra o Partido dos Trabalhadores (PT).
"A memória dos brasileiros está sendo cotidianamente lembrada sobre a corrupção, diante de notícias como a prisão de políticos e funcionários do mais alto escalão de grandes empresas. É importante se preocupar com o assunto, mas também refletir que a corrupção é um problema estrutural da nossa sociedade, faz parte da cultura brasileira", argumenta.
Para ele, antes de se preocupar com soluções para os grandes desvios de dinheiro, é preciso prestar atenção em como as pequenas ações corruptas fazem parte da vida das pessoas. "Os brasileiros temem a corrupção em grande escala, mas muita gente continua praticando pequenos desvios, como comprar DVD pirata, furtar TV a cabo, sonegar pequenos impostos", exemplifica.
Prando destaca que a grande corrupção existe, mas há ambiente propício a ela também nos pequenos atos. "As pessoas acabam se acostumando com as pequenas malandragens, aquela situação de conseguir se safar de algum problema com um presentinho... é preciso questionar essa cultura", defende.
Outra dificuldade é a falta de organização dos brasileiros. "Quando as pessoas pensam apenas nos bilhões desviados, creem que é muito difícil combater esta estrutura e esta cultura. O caminho para mudar essa realidade é trazer o assunto para o cotidiano", reforça.
O nível de educação e escolaridade, para ele, também influencia "o aceite ou não da corrupção", que é algo que permeia todas as classes sociais. "Não tem solução mágica e nem a curto prazo. Este ano, milhares de pessoas foram às ruas protestar, voltaram para suas casas e não aconteceu nada. É preciso ter consciência, educação e cobrança efetiva para que o governo seja transparente nas ações", opina.

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