'CORPO IDEAL' Transtornos alimentares ameaçam jovens
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sábado, 25 de fevereiro de 2012
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
A imagem cadavérica refletida no espelho, resultado do emagrecimento exagerado causado pela recusa em se alimentar, não foi suficiente para convencer Marina (nome fictício) de que estava doente. Vítima da anorexia nervosa que começou a se manifestar quando tinha 15 anos, a adolescente passou por desmaios, síndrome do pânico e viu a balança marcar 34 quilos antes de entender que precisava de tratamento.
Moradora da região de Londrina, Marina foi mais uma vítima dos chamados transtornos alimentares. Anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar transitória são as três principais patologias desse grupo de doenças que, de acordo com especialistas ouvidos pela FOLHA, estão atingindo adolescentes e até mesmo crianças cada vez mais precocemente.
A ingestão compulsiva de comida e a total recusa em se alimentar são os dois extremos dessas doenças que podem causar graves danos à saúde e até levar à morte. A pressão para atingir padrões de beleza que associam a boa aparência ao corpo cada vez mais magro em contradição à oferta exagerada de alimentos industrializados, ricos em gorduras e calorias, compõem o cenário onde esses transtornos aparecem.
Com 1,61m de altura e 50 quilos à época em que começou a desenvolver anorexia, Marina não se considerava magra o suficiente para usar calças de grifes famosas no idealizado manequim 36. ''Tenho estrutura grande e, apesar de usar manequim 38, me achava fora do peso.'' Perfeccionista e determinada, ela mergulhou no mundo das dietas em busca do ''corpo ideal'' e, em um ano, chegou a pesar 34 quilos. O baixo peso e a típica imagem da anorexia no espelho não a convenciam sobre o transtorno.
Foi só após desenvolver síndrome do pânico e sofrer uma crise nervosa que ela aceitou a orientação da família e procurou tratamento. O processo de redescobrir o prazer de comer incluiu medicamentos e psicoterapia. Hoje com 20 anos, Marina continua vaidosa, mas não pensa mais em dietas. ''Estou até gordinha'', brinca ela, que finalmente entendeu que ser bonita não significa estar dentro do padrão de beleza inatingível divulgado pela mídia.
Episódios
O psiquiatra Celso Alves dos Santos Filho, do Programa de Atendimento a Pacientes com Transtornos Alimentares (Proata) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a anorexia nervosa caracteriza-se por um medo mórbido de engordar associado à recusa em se alimentar. Os pacientes sempre têm baixo peso e podem apresentar exagero na prática de exercícios físicos e consumo de laxantes, diuréticos e indução ao vômito.
Já a bulimia nervosa é caracterizada pelo mesmo medo de engordar. O principal sintoma, porém, é a alternância de episódios de compulsão alimentar, com ingestão de grandes quantidades de comida, e utilização de métodos compensatórios para tentar evitar o efeito engordativo, como indução ao vômito e laxantes. Ao contrário dos anoréxicos, os bulímicos apresentam peso normal.
Já o transtorno da compulsão alimentar periódica envolve a ingestão de grandes quantidades de comida sem a utilização de métodos compensatórios. Como consequência, a maior parte dos pacientes é obesa.
Santos Filho enfatizou que a anorexia e a bulimia vitimam principalmente mulheres bem jovens, mas há observação de aumento dos transtornos em crianças que ainda não atingiram a puberdade e mulheres acima de 40 anos. As causas não são totalmente conhecidas, mas, segundo ele, a pressão social pela magreza, a adesão a dietas sem acompanhamento médico e a predisposição biológica parecem despertar as patologias.
As consequências são graves e, no caso da anorexia, podem levar à morte por inanição ou alterações cardíacas. Quanto mais cedo os transtornos se manifestarem, maior a chance de causarem alterações metabólicas no cérebro e no sistem reprodutivo, que podem ser irreversíveis.


