CONVIVENDO COM O INIMIGO - O perigo mais perto do que se imagina
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sábado, 14 de setembro de 2013
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Pouco tempo atrás, uma mulher de 70 anos, de Cambé (Norte), foi vítima de um crime de estelionato que chocou a cidade, envolvendo a integrante de uma família vizinha da vítima há pelo menos 50 anos. Por meio de bilhetes colocados em sua caixa de correspondência, a idosa começou a receber ameaças de morte contra o filho, que tem Síndrome de Down, e ser informada que sua casa poderia ser incendiada. Amedrontada, chegou a pagar R$ 3 mil, acreditando que assim voltaria a ter sossego. A extorsão, porém, não parou, e por pouco a vítima não foi roubada em mais R$ 4 mil, o que só não aconteceu pela intervenção da polícia.
O caso retrata uma situação cada vez mais comum no País, que são os golpes cometidos por pessoas da total confiança da vítima, motivando, muitas vezes, decepções sem precedentes. "Só em Curitiba e Região Metropolitana, registramos uns cinco casos recentes de funcionários antigos de empresas que foram descobertos desviando dinheiro ou mercadorias. Em um dos casos o rombo chegou a mais de R$ 1 milhão", informou o delegado Vinícius Borges Martins, da Delegacia de Estelionato e Desvio de Cargas de Curitiba. Segundo ele, em um dos casos o funcionário trabalhava há mais de 30 anos na empresa. "É aquela sensação de dormir com o inimigo", definiu.
Para o delegado Jorge Barbosa, da Delegacia de Cambé, o tráfico de drogas pode ter influenciado no número de golpes que visam dinheiro fácil. Esta não teria sido, porém, a motivação do crime ocorrido em Cambé. Segundo a polícia apurou, a golpista, que morava com o marido e o filho pequeno em uma casa que há muitos anos é da mesma família, em um bairro tradicional da cidade onde todos se conhecem, pretendia juntar dinheiro para fazer uma lipoaspiração.
"Já vi muitos tipos de golpes, mas nenhum assim, com extorsão mediante ameaça por carta e envolvendo uma pessoa tão próxima da vítima", argumentou Barbosa, que trabalha há 43 anos na Polícia Civil, 20 deles como delegado. Ele explicou que, nos bilhetes, a criminosa exigia que a dona de casa pendurasse uma fita branca no portão da casa quando conseguisse o montante requisitado. Pouco tempo depois um motoboy passaria para "pegar a encomenda". Na segunda vez que um motoboy foi à casa da idosa, um policial à paisana já o aguardava, mas não foi possível fazer o flagrante da mentora do golpe. Atualmente o inquérito encontra-se no Ministério Público (MP) para que seja oferecida denúncia.
De acordo com o delegado, os golpes "estão sendo aprimorados", mas há aqueles tradicionais, já bastante divulgados pela mídia, que continuam a fazer vítimas. "Até hoje tem gente que cai, por exemplo, no golpe do bilhete ou no golpe do falso sorteio pelo telefone celular (que induz a pessoa a colocar uma grande quantia de créditos)." Muitas destas pessoas, diz Barbosa, não chegam a procurar a polícia, para não admitir que foram enganadas. "Quando cai a ficha, elas ficam com vergonha e não denunciam."
Voto de confiança
No caso de uma funcionária pública de Londrina, que prefere não ter o nome divulgado, o erro foi confiar em uma pessoa da família que dizia enfrentar um momento difícil após a morte da mãe. "Eu estava em casa, me recuperando de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), quando recebi a visita de um sobrinho do meu marido. Ele me falou que queria se mudar de São Paulo para Londrina e precisava de fiador para alugar um imóvel. Em uma ocasião anterior eu já havia tentado ajudá-lo, indicando-o para um emprego, e ele arrumou a maior confusão, chegou até a depredar um telefone público. O caso apareceu na imprensa, expondo o nome da família. Mas mesmo assim resolvemos dar uma segunda chance a ele", conta.
A má surpresa veio este ano, ao final do contrato de locação. Os fiadores descobriram que havia dois meses de aluguel atrasados, um ano de contas de água e luz em aberto e, para que o imóvel fosse entregue, teria que ser submetido a pintura e faxina. "Uma grande quantidade de entulhos foi retirada de dentro da casa", conta a funcionária pública. No total, as despesas com os serviços e pagamento de contas chegaram a R$ 8 mil. "Meu marido teve que fazer um empréstimo para poder pagar tudo, porque prezamos pelo nosso nome e somos honestos. Não esperávamos um baque deste." A decepção foi tão grande que hoje a funcionária pública se diz mais descrente no ser humano. "A gente quer ajudar, quer poder confiar no próximo, mas é complicado. Depois dessa, acho que não caio tão facilmente em outra."
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